Distraído, olhando a cidade, Lizarede saboreava aquele travo
amargo de loucura como se se tratasse de um cigarro. Às vezes, tinha
visões. Então, sacudia a cabeça como um gato ensonado e voltava a
fixar, de olhos bem abertos, as pessoas que corriam apressadas sob
a vigilância das luzes.
Foi dessa vez que a cigana lhe disse que ele viveria até sempre.
A noite caía quando Lizarede sorriu, muitos anos depois. Tocando
levemente o corpo da àrvore mais próxima, adivinhou que aquilo talvez
já fosse um pouco do sentimento de liberdade.
Depois, o silêncio total fê-lo esquecer-se da noite. Foi como
uma luz, e ele gostou, espécie de loucura suave e delicada. Daquela
vez, pensou então, tudo podia acontecer. Estava ali, e as possibilidades
eram imensas. Como se o mundo estivesse mudado.
Sentou-se ali mesmo, no chão, e respirou fundo. A pouco e pouco,
um doce torpor invadiu-lhe os membros. Fechou os olhos, e quase dormia
quando um ali perto um galho se quebrou, um pássaro assustado levantou
voo, a noite perdeu o seu silêncio mágico.
Lizarede estava, então, de volta ao mundo. Como um bote ao sabor
da tormenta.
-- Quem está aí? -- perguntou, quase gritou, não por susto mas sim
por raiva.
Levantou-se e avançou ao acaso através do bosque. Não viu ninguém.
Apenas o susto, um descanso perturbado.