Hoje é um dia de memórias. São todos, mas hoje, pronto. Aqui vai a minha contribuição. Tarde, mas a tempo. O Zeca era um poeta.
Veio lá da terra
Um homem
Tentar a ventura
Põe a roupa
Na maleta
Lá vai de abalada
Não pensa em voltar
Faz como a formiga
Fura fura
Fura sem parar
Pela estrada fora
Era já
Meia-noite
Só cães a ladrar
A chuva na terra
O vento no mar
Um velho voltou
E disse-me adeus
Cantando e dançando
Debaixo do céu
"Que é pena, que é mágoa
Que uma ave de penas
Não possa voar"
Às vezes
Não tenho jeito
P'ra falar de amigos
Meu amigo
Passageiro
Dá-me o teu capote
Para me abrigar
Vai num barco à vela
Numa aduela
Vai fazer-se ao mar
Passaram-se os dias
Dias da
Vida dum cavalo
A galopar
E o homem a andar
E o homem a andar
Um velho voltou
E disse-me adeus
Cantando e dançando
Debaixo do céu
"Que é pena, que é mágoa
Que uma ave de penas
Não possa voar"
Assim disposta
à imaginação
ela suscita
uma diferente paixão.
Sentada caminha
em constante
levitação.
Um velho muito velho com um chapéu mágico na cabeça.
Rita Lee chegou e disse-lhe:
-- Doença de amor se cura com outro.
Mas o velho muito velho começou a chorar.
Rita continuou a cantar. Até ficar exausta. No final, o velho muito velho já sorria. Cortesmente, tirou-lhe o chapéu, e na sua cabeça apareceu uma multidão de cabelos a aplaudir a bonita canção.
O que é preciso é gente
gente com dente
gente que tenha dente
que mostre o dente
Gente que não seja decente
nem docente
nem docemente
nem delicodocemente
Gente com mente
com sã mente
que sinta que não mente
que sinta o dente são e a mente
Gente que enterre o dente
que fira de unha e dente
saudavelmente entre
e mostre o dente potente
ao prepotente
O que é preciso é gente
que atire fora com essa gente
ANA HATHERLY, in "Ao Qu'Isto Chegou!?", Ed. Estampa, 1977
Estendido ao longo da cama, o longilíneo fauno observa para lá da janela as outras janelas. Ouve os Simply Red e julga-se um fauno. Imagina que vê gente para lá das outras janelas. Tem mesmo a ousadia de imaginar que há gente viva à sua volta, mas fica a pensar que o que gostava mesmo muito de ter ali era uma flor, uma simples flor, perfumada e bonita. Depois, o longilíneo fauno pensa que deve acreditar naquelas luzes ao longe e ao mesmo tempo em tudo o que está a escrever. Sorri. Agarra na dor de cabeça e acha-a com um rosto interessante. Diz-lhe: por causa de ti tive a vontade louca de aspirar à mais profunda ilusão e a fazer amor com a princesa da esquina. A dor de cabeça sorriu e abriu as mãos como se dissesse que era evidente.