junho 14, 2005

HISTÓRIA DE ALDEMIN

A partir de hoje, este será um blog exclusivamente sobre literatura. No Bosque, só passam a ser aceites personagens com uma aura de irrealidade. No fundo, esse sempre foi o fascínio da minha vida. Vou, pois, recuperar para aqui muitos textos antigos, há muitos anos perdidos na confusão de gavetas e dossiers. Eventualmente, podem estimular a imaginação de algum leitor ou ajudar a homenagear a língua portuguesa como privilegiada para estas coisas da ficção.

Reescrevi, há poucos minutos, um antigo conto que intitulei "História de Aldemin". É um delírio literário, um devaneio cheio de referências das histórias que ouvimos e lemos na infância. Mas tem uma cor, e imaginação, que às vezes nos parecem impossíveis aos 40 anos...

HISTÓRIA DE ALDEMIN


Junto à pequena vila de Sandizum, entre o surrealismo sombrio de uns
altos pinheiros cuja idade ultrapassava a de todos os habitantes, menos de
um, Aldemin, que os plantara em criança num tempo que só ele conhecia, havia
um belo lago de nenúfares.
Eles cobriam a água de uma extraordinária cor azul e violeta, e
inundavam o local de uma serenidade comovente. Ali se vivia um fascinante
silêncio de terra de ninguém, como se o local não existisse verdadeiramente
ou estivesse submergido num remoto passado, e por isso tão silencioso como
o tempo. Por vezes, quem perturbava o silêncio eram pequenas aves brancas,
pombas de um próximo castelo em ruínas, que com os seus voos rasantes, que
não com os seus arrulhos, pois eram tão silenciosas como o velho Aldemin,
que era mudo, história esquisita de uma criança a quem a fala se escapa de
repente, assim como por magia, escreviam páginas de aventuras através das
folhas em branco do céu. Eram longas as horas que o velho guardador dos
pinheiros ali ficava, sob a doce protecção da grande sombra, tentando decifrar
as mensagens que elas deixavam, procurando ansiosamente descobrir o falar
e os segredos do silêncio.
Para ele havia em tudo uma linguagem e um pensamento, aquele lugar
tinha um significado, como todos os outros, e há muito que Aldemin o
procurava desvendar, desde aquele dia longínquo em que, depois de plantar
o último pinheiro, se apoderara dele uma tal emoção que a fala o deixara,
abruptamente, como quem empurra um prisioneiro para o silêncio de uma
masmorra. Por isso estava preso àquele lugar. As pessoas de Sandizum
consideravam-no meio louco, um pobre velho solitário vivendo miseravelmente,
convencido de que um antigo lago misterioso o recompensaria um dia com
qualquer tesouro ou fantástico segredo.
O que,diga-se, ainda que para espanto de todos os habitantes das
redondezas, inclusivamente das pombas brancas que, assustadas, voaram em
longos círculos para as montanhas mais próximas, aconteceu, numa rosada e
doce manhã de Verão.
Aldemin, acocorado em frente das àguas, estava mergulhado num dos
seus muitos estados de semi-hipnotismo, os olhos pregados nos peixinhos
vermelhos que cruzavam a serena água do lago esverdeado. Os primeiros sons
que os seus sentidos captaram pareceram-lhe vir do fundo da natureza, do
fundo daquela água, do recanto mais ignorado daqueles pinheiros que conhecia
como a si próprio. Como um chocalho...
Dele se aproximou o som, e houve uma altura em que Aldemin se levantou e olhou em volta, mas nada mais viu a não ser o lago e os belos nenúfares, deslizando lentamente ao sabor da brisa. Os seus olhos circularam como uma roleta, o jogador perdido no desejo e na ambição.
O céu, que estava cheio de um azul calmo e tranquilizador, pareceu-lhe
amarelo como um girassol; as águas do lago correram-lhe para os olhos como
cataratas; e os pinheiros cresceram, cresceram, Aldemin perdeu-lhes a conta
e o destino.
Aquilo já lhe acontecera por várias vezes. Em todas elas, sempre pensara
que a voz lhe voltaria após tão violenta e precipitada visão, mas depois tudo
não passava de um grunhido animal que assustava aves, flores e o próprio
homem, como se o que se passara não tivesse sido suficiente e fosse o filme
cortado a meio da rodagem.
Desta vez procurou impôr-se perante o céu amarelo, e pensou como se
gritasse:
-- Quero ver a àguia mágica com o incenso no bico!
E viu-a mesmo, enorme, gigantesca e dourada, sumindo-se entre o amarelo ardente como se fosse uma pequena chama. No fundo, não passou de uma fantasia. Não lhe encheu o peito de extraordinária emoção, rapidamente os pinheiros desceram do céu, que voltou a ser azul sobre o lago calmíssimo ao largo da vila de Sandizum.
No entanto, havia algo mais, aparecido de lado nenhum, com os ruídos das velhas lembranças, o chocalho próximo, ao lado, através de nós.
Quando a viu, Aldemin não quis acreditar. Era tão bela quanto é possível
imaginar. Tinha viajado num elegante coche azul, de adornos prateados, puxado por dois gigantescos cavalos brancos.
Os cabelos eram louros, com a abundância de um rio, as ondas de uma
cordilheira. Os olhos... azuis, de límpida claridade, simples grandeza. As
As sobrancelhas arqueadas, os lábios finos de sereno rosa.
Aldemin não quis acreditar, isso não.
-- Cá para mim... -- pensou -- O que eu estou realmente a ver são aqueles peixes vermelhos brincando através das algas.
Depois reparou nas algas, que se arrepiaram quando ela se aproximou,
debruçada no espelho, compondo o cabelo e os fios de ouro que lhe adornavam o pescoço.
Aldemin, que estava ao lado dela, achou estranho que a bela o não olhasse, um sorriso não lhe dispensasse. Permanecia na sua vaidade, mergulhada na sua própria beleza, reflectida nas águas serenas demais.
O velho... não existia. Viu-a num quarto do seu palácio, sentada frente
ao espelho, penteando durante horas o seu maravilhoso cabelo, rosando a sua face, rodeando os olhos das cores mágicas que enfeitiçavam. Durante longos minutos, imaginou todo o cenário que rodeava aquela raínha, os véus, as coroas, as jóias, os tesouros, os vassalos... aqui chegado, estranhou quando os viu aos gritos, em grandes multidões, e esses gritos não se ouviam, eram cruelmente silenciosos.
Isto afectou-o.
-- São prisioneiros do silêncio, como eu... -- pensou.
E sempre que pensava isto apoderava-se dele uma pesada angústia, uma sensação de aperto no peito e na garganta, o fogo da impaciência ardendo no seu interior.
Então gritou-lhe:
-- O meu nome é Aldemin!
Falou tão alto que a sua voz ecoou de encontro aos pinheiros e nenúfares do lago. E o vento soprou, as ervas arrepiaram-se, quem sabe se de susto.
Ela é que não se mexeu. Acocorada junto das àguas, esteve uns momentos em silêncio hipnótico e depois, quando acordou, Aldemin pôde vê-la com as suas mãos finas e rosadas, tão belas que apetecia beijá-las, esgaravatando no chão. E fê-lo com tanta ansiedade e vigor que depressa a cova se alargou, tufos de terra e erva lançados em volta.
Aldemin nunca vira nada tão horrível. Então voltou a gritar-lhe:
-- Mas... que faz? Suja-se, minha linda senhora!
A natureza em volta oscilou de novo perante o impacto da voz de Aldemin. E era, de facto, uma voz estranha, marcado por inusitado timbre de bebé.
O velho guardador do lago ao largo de Sandizum calou-se pela primeira vez após muitos anos.
-- Falo! -- pensou.
Então, naquele exacto momento, ele apaixonou-se por ela. Disse-lhe amo-te com a voz mais macia que conseguiu encontrar na sua garganta de bebé ansioso. Não lhe saíu bem a declaração. Se as ervas, os pinheiros, as águas, estremeciam com aquele monstro de cara feia e gestos indelicados, era evidente que também ela fugiria sem demora para o coche que a trouxera, onde... só agora reparava!, ninguém sentado estava, nenhum idoso cocheiro de ar respeitável e paternal, olhando-a e pensando "Como é bela! Hei-de defendê-la até à morte!".
E Aldemin pensou vê-la levantar-se e correr, dizer ao velho "vamos para longe, está ali um monstro apaixonado por mim!". Mas ela tinha nos olhos a dignidade e a firmeza de quem não receia nem monstro nem fantasmas, e muito menos... apaixonados. Assim, impassível se mantêve, ocupada na sua tarefa animalesca de remexer o solo, à procura de... uma caixa! Pequenina, pintada de um azul escuro das profundezas do mar, tinha dentro de si encerrado um estranho pó de cor dourada e fantástico perfume.
Aldemin pensou desmaiar, quando aquele vento lhe tocou as narinas e lhe
percorreu todo o corpo, fazendo-lhe correr mais depressa o seu sangue cinquentenário, estremecendo-lhe as veias acossadas.
Ela sorriu, de inteira felicidade. O velho ouviu mesmo aquela voz pela
primeira vez quando a ouviu cantar numa língua estranha, ao mesmo tempo que lançava o pó, em grandes bandos de poeira, na direcção dos nenúfares do lago. Isto foi coisa que Aldemin não entendeu, e gritou-lhe de novo:
-- Por acaso sois louca? Posso saber o que fazeis?
Como anteriormente, ela não o ouviu. Continuou a cantar, e tinha fresca e
delicada voz, que o velho guardador dos pinheiros invejou.
O pó de cor dourada corria, entretanto, em pequenas tempestades sobre os nenúfares, os belos nenúfares da tranquilidade, de súbito despertos, de súbito inquietados por aquele perfume louco.
Como amantes desenfreados, começaram a suar abundantemente, e Aldemin pode olhar, estupefacto, as bolhas que se levantavam, o vulcão em erupção que a bela provocara.
Desta vez, não encontrou mais palavras para lhe gritar. Correu de um lado para o outro, enlouquecido pelo que via, sem saber o que fazer.
E ela sorria, cantava, soltava gargalhadas que acabaram por arrancar
a Aldemin um desabafo de ódio:
-- Bruxa!
Acontecimentos maravilhosos se passavam então à sua volta: o céu branco enchia-se de pequenos balões azul claros, como que perdidos de uma festa de crianças; as folhas compridas e verde-escuras dos pinheiros de Aldemin tomaram prateadas tonalidades, como se um poderoso processo alquímico tivesse ocorrido nas suas raízes; e... maravilha das maravilhas, os nenúfares tranquilos do lago levantaram-se dos ares em belíssimas colunas floridas, construindo sobre as àguas de prata um espantoso edifício vegetal.
Aí, o velho guardador dos pinheiros encontrou uma pequena criança que
chorava. Sensibilizado, aproximou-se e perguntou:
-- Porque choras? Diz-me, conta-me o que se passa...
Então, o pequeno parou de chorar e, muito sério, fixou-o e disse-lhe:
-- Tu... cala-te! Nem devias estar a falar...
Aldemin não esperava uma resposta daquelas, e por isso ficou calado durante uns minutos, de cabeça baixa e sem saber o que fazer, porque não compreendia o que se passava. Quando voltou a olhar em volta, já não avistou a bela. O coche ainda lá estava, e o rapaz que chorava abandonara o edifício vegetal e subia uma montanha ao longe, na direcção de um sol brilhantíssimo. Então, o velho guardador dos pinheiros correu atrás dele. Passando para lá da montanha, viu-se num enorme vale, onde não avistou nem rapaz nem bela. Apenas um grupo folclórico, a que se juntou. Recuperara a voz, e as suas canções tornaram-se famosas no mundo de então.

Publicado por Joaquim Semeano em 05:20 PM | Comentários (0)

HISTÓRIA DE ALDEMIN

A partir de hoje, este será um blog exclusivamente sobre literatura. No Bosque, só passam a ser aceites personagens com uma aura de irrealidade. No fundo, esse sempre foi o fascínio da minha vida. Vou, pois, recuperar para aqui muitos textos antigos, há muitos anos perdidos na confusão de gavetas e dossiers. Eventualmente, podem estimular a imaginação de algum leitor ou ajudar a homenagear a língua portuguesa como privilegiada para estas coisas da ficção.

Reescrevi, há poucos minutos, um antigo conto que intitulei "História de Aldemin". É um delírio literário, um devaneio cheio de referências das histórias que ouvimos e lemos na infância. Mas tem uma cor, e imaginação, que às vezes nos parecem impossíveis aos 40 anos...

HISTÓRIA DE ALDEMIN


Junto à pequena vila de Sandizum, entre o surrealismo sombrio de uns
altos pinheiros cuja idade ultrapassava a de todos os habitantes, menos de
um, Aldemin, que os plantara em criança num tempo que só ele conhecia, havia
um belo lago de nenúfares.
Eles cobriam a água de uma extraordinária cor azul e violeta, e
inundavam o local de uma serenidade comovente. Ali se vivia um fascinante
silêncio de terra de ninguém, como se o local não existisse verdadeiramente
ou estivesse submergido num remoto passado, e por isso tão silencioso como
o tempo. Por vezes, quem perturbava o silêncio eram pequenas aves brancas,
pombas de um próximo castelo em ruínas, que com os seus voos rasantes, que
não com os seus arrulhos, pois eram tão silenciosas como o velho Aldemin,
que era mudo, história esquisita de uma criança a quem a fala se escapa de
repente, assim como por magia, escreviam páginas de aventuras através das
folhas em branco do céu. Eram longas as horas que o velho guardador dos
pinheiros ali ficava, sob a doce protecção da grande sombra, tentando decifrar
as mensagens que elas deixavam, procurando ansiosamente descobrir o falar
e os segredos do silêncio.
Para ele havia em tudo uma linguagem e um pensamento, aquele lugar
tinha um significado, como todos os outros, e há muito que Aldemin o
procurava desvendar, desde aquele dia longínquo em que, depois de plantar
o último pinheiro, se apoderara dele uma tal emoção que a fala o deixara,
abruptamente, como quem empurra um prisioneiro para o silêncio de uma
masmorra. Por isso estava preso àquele lugar. As pessoas de Sandizum
consideravam-no meio louco, um pobre velho solitário vivendo miseravelmente,
convencido de que um antigo lago misterioso o recompensaria um dia com
qualquer tesouro ou fantástico segredo.
O que,diga-se, ainda que para espanto de todos os habitantes das
redondezas, inclusivamente das pombas brancas que, assustadas, voaram em
longos círculos para as montanhas mais próximas, aconteceu, numa rosada e
doce manhã de Verão.
Aldemin, acocorado em frente das àguas, estava mergulhado num dos
seus muitos estados de semi-hipnotismo, os olhos pregados nos peixinhos
vermelhos que cruzavam a serena água do lago esverdeado. Os primeiros sons
que os seus sentidos captaram pareceram-lhe vir do fundo da natureza, do
fundo daquela água, do recanto mais ignorado daqueles pinheiros que conhecia
como a si próprio. Como um chocalho...
Dele se aproximou o som, e houve uma altura em que Aldemin se levantou e olhou em volta, mas nada mais viu a não ser o lago e os belos nenúfares, deslizando lentamente ao sabor da brisa. Os seus olhos circularam como uma roleta, o jogador perdido no desejo e na ambição.
O céu, que estava cheio de um azul calmo e tranquilizador, pareceu-lhe
amarelo como um girassol; as águas do lago correram-lhe para os olhos como
cataratas; e os pinheiros cresceram, cresceram, Aldemin perdeu-lhes a conta
e o destino.
Aquilo já lhe acontecera por várias vezes. Em todas elas, sempre pensara
que a voz lhe voltaria após tão violenta e precipitada visão, mas depois tudo
não passava de um grunhido animal que assustava aves, flores e o próprio
homem, como se o que se passara não tivesse sido suficiente e fosse o filme
cortado a meio da rodagem.
Desta vez procurou impôr-se perante o céu amarelo, e pensou como se
gritasse:
-- Quero ver a àguia mágica com o incenso no bico!
E viu-a mesmo, enorme, gigantesca e dourada, sumindo-se entre o amarelo ardente como se fosse uma pequena chama. No fundo, não passou de uma fantasia. Não lhe encheu o peito de extraordinária emoção, rapidamente os pinheiros desceram do céu, que voltou a ser azul sobre o lago calmíssimo ao largo da vila de Sandizum.
No entanto, havia algo mais, aparecido de lado nenhum, com os ruídos das velhas lembranças, o chocalho próximo, ao lado, através de nós.
Quando a viu, Aldemin não quis acreditar. Era tão bela quanto é possível
imaginar. Tinha viajado num elegante coche azul, de adornos prateados, puxado por dois gigantescos cavalos brancos.
Os cabelos eram louros, com a abundância de um rio, as ondas de uma
cordilheira. Os olhos... azuis, de límpida claridade, simples grandeza. As
As sobrancelhas arqueadas, os lábios finos de sereno rosa.
Aldemin não quis acreditar, isso não.
-- Cá para mim... -- pensou -- O que eu estou realmente a ver são aqueles peixes vermelhos brincando através das algas.
Depois reparou nas algas, que se arrepiaram quando ela se aproximou,
debruçada no espelho, compondo o cabelo e os fios de ouro que lhe adornavam o pescoço.
Aldemin, que estava ao lado dela, achou estranho que a bela o não olhasse, um sorriso não lhe dispensasse. Permanecia na sua vaidade, mergulhada na sua própria beleza, reflectida nas águas serenas demais.
O velho... não existia. Viu-a num quarto do seu palácio, sentada frente
ao espelho, penteando durante horas o seu maravilhoso cabelo, rosando a sua face, rodeando os olhos das cores mágicas que enfeitiçavam. Durante longos minutos, imaginou todo o cenário que rodeava aquela raínha, os véus, as coroas, as jóias, os tesouros, os vassalos... aqui chegado, estranhou quando os viu aos gritos, em grandes multidões, e esses gritos não se ouviam, eram cruelmente silenciosos.
Isto afectou-o.
-- São prisioneiros do silêncio, como eu... -- pensou.
E sempre que pensava isto apoderava-se dele uma pesada angústia, uma sensação de aperto no peito e na garganta, o fogo da impaciência ardendo no seu interior.
Então gritou-lhe:
-- O meu nome é Aldemin!
Falou tão alto que a sua voz ecoou de encontro aos pinheiros e nenúfares do lago. E o vento soprou, as ervas arrepiaram-se, quem sabe se de susto.
Ela é que não se mexeu. Acocorada junto das àguas, esteve uns momentos em silêncio hipnótico e depois, quando acordou, Aldemin pôde vê-la com as suas mãos finas e rosadas, tão belas que apetecia beijá-las, esgaravatando no chão. E fê-lo com tanta ansiedade e vigor que depressa a cova se alargou, tufos de terra e erva lançados em volta.
Aldemin nunca vira nada tão horrível. Então voltou a gritar-lhe:
-- Mas... que faz? Suja-se, minha linda senhora!
A natureza em volta oscilou de novo perante o impacto da voz de Aldemin. E era, de facto, uma voz estranha, marcado por inusitado timbre de bebé.
O velho guardador do lago ao largo de Sandizum calou-se pela primeira vez após muitos anos.
-- Falo! -- pensou.
Então, naquele exacto momento, ele apaixonou-se por ela. Disse-lhe amo-te com a voz mais macia que conseguiu encontrar na sua garganta de bebé ansioso. Não lhe saíu bem a declaração. Se as ervas, os pinheiros, as águas, estremeciam com aquele monstro de cara feia e gestos indelicados, era evidente que também ela fugiria sem demora para o coche que a trouxera, onde... só agora reparava!, ninguém sentado estava, nenhum idoso cocheiro de ar respeitável e paternal, olhando-a e pensando "Como é bela! Hei-de defendê-la até à morte!".
E Aldemin pensou vê-la levantar-se e correr, dizer ao velho "vamos para longe, está ali um monstro apaixonado por mim!". Mas ela tinha nos olhos a dignidade e a firmeza de quem não receia nem monstro nem fantasmas, e muito menos... apaixonados. Assim, impassível se mantêve, ocupada na sua tarefa animalesca de remexer o solo, à procura de... uma caixa! Pequenina, pintada de um azul escuro das profundezas do mar, tinha dentro de si encerrado um estranho pó de cor dourada e fantástico perfume.
Aldemin pensou desmaiar, quando aquele vento lhe tocou as narinas e lhe
percorreu todo o corpo, fazendo-lhe correr mais depressa o seu sangue cinquentenário, estremecendo-lhe as veias acossadas.
Ela sorriu, de inteira felicidade. O velho ouviu mesmo aquela voz pela
primeira vez quando a ouviu cantar numa língua estranha, ao mesmo tempo que lançava o pó, em grandes bandos de poeira, na direcção dos nenúfares do lago. Isto foi coisa que Aldemin não entendeu, e gritou-lhe de novo:
-- Por acaso sois louca? Posso saber o que fazeis?
Como anteriormente, ela não o ouviu. Continuou a cantar, e tinha fresca e
delicada voz, que o velho guardador dos pinheiros invejou.
O pó de cor dourada corria, entretanto, em pequenas tempestades sobre os nenúfares, os belos nenúfares da tranquilidade, de súbito despertos, de súbito inquietados por aquele perfume louco.
Como amantes desenfreados, começaram a suar abundantemente, e Aldemin pode olhar, estupefacto, as bolhas que se levantavam, o vulcão em erupção que a bela provocara.
Desta vez, não encontrou mais palavras para lhe gritar. Correu de um lado para o outro, enlouquecido pelo que via, sem saber o que fazer.
E ela sorria, cantava, soltava gargalhadas que acabaram por arrancar
a Aldemin um desabafo de ódio:
-- Bruxa!
Acontecimentos maravilhosos se passavam então à sua volta: o céu branco enchia-se de pequenos balões azul claros, como que perdidos de uma festa de crianças; as folhas compridas e verde-escuras dos pinheiros de Aldemin tomaram prateadas tonalidades, como se um poderoso processo alquímico tivesse ocorrido nas suas raízes; e... maravilha das maravilhas, os nenúfares tranquilos do lago levantaram-se dos ares em belíssimas colunas floridas, construindo sobre as àguas de prata um espantoso edifício vegetal.
Aí, o velho guardador dos pinheiros encontrou uma pequena criança que
chorava. Sensibilizado, aproximou-se e perguntou:
-- Porque choras? Diz-me, conta-me o que se passa...
Então, o pequeno parou de chorar e, muito sério, fixou-o e disse-lhe:
-- Tu... cala-te! Nem devias estar a falar...
Aldemin não esperava uma resposta daquelas, e por isso ficou calado durante uns minutos, de cabeça baixa e sem saber o que fazer, porque não compreendia o que se passava. Quando voltou a olhar em volta, já não avistou a bela. O coche ainda lá estava, e o rapaz que chorava abandonara o edifício vegetal e subia uma montanha ao longe, na direcção de um sol brilhantíssimo. Então, o velho guardador dos pinheiros correu atrás dele. Passando para lá da montanha, viu-se num enorme vale, onde não avistou nem rapaz nem bela. Apenas um grupo folclórico, a que se juntou. Recuperara a voz, e as suas canções tornaram-se famosas no mundo de então.

Publicado por Joaquim Semeano em 05:20 PM | Comentários (0)