fevereiro 25, 2005

VELHINHO DE BICICLETA

O velhinho, vestido de negro, percorre, na sua bicicleta, as ruas da aldeia. Vai atento e não vai seguro. Nas suas mãos, a bicicleta é um cântaro prestes a partir-se. Na fonte vai observando os rapazes à espera da água mágica. Os seus olhos vão semicerrando-se à medida que o tempo passa e o sol vai caindo.

Publicado por Joaquim Semeano em 04:22 PM | Comentários (0)

A FERIDA


O homem morreu
debruçado na janela.
Os olhos abertos,
muito abertos,
fixados nela.
Deitavam luz,
eram vida.
Era
e terna
a ferida.

Publicado por Joaquim Semeano em 04:21 PM | Comentários (0)

CÂMARA LENTA

Devagar,
passo a passo,
o corpo passa
pela posse
do outro.
Do outro
que passa
mais um dedo
passo a passo.

Publicado por Joaquim Semeano em 04:20 PM | Comentários (0)

fevereiro 22, 2005

O PONTO

Deixem-me sentar
olhar para aqui
para o núcleo
que entrevi
no sítio onde
fui parar.
Ponto por ponto
nos encontramos
num círculo
místico
neste minúsculo
lugar
onde estamos.

Publicado por Joaquim Semeano em 08:53 PM | Comentários (0)

fevereiro 14, 2005

A IRMÃ LÚCIA

A novela, o dramatismo, a pena, o dia de luto nacional (!!!), tudo o que se tem feito e dito a propósito da morte da irmã Lúcia, mostra bem a República das Bananas em que este país se transformou. Fale-se de hipocrisia, cinismo, falsidade, demagogia, crise absoluta de ideias e de ideais. Entre muita coisa que poderia ser dita, bastam algumas dicas: quem foi a irmã Lúcia? O que disse e o que fez por este país? Porque a mantiveram enclausurada quando, se por algumas pessoas era encarada como uma santidade, poderia e deveria ter tido a possibilidade de falar com as pessoas? Porque foi mantida escondida até agora, e agora que morreu é alvo das notícias principais de jornais e televisões? E até há partidos políticos que suspendem campanhas eleitorais?

Eu já sabia. Mas este episódeo confirma. Um país pimba. Para esquecer. Um país que é preciso deitar para o lixo para a seguir criarmos todos um novo país. Um novo país onde se faça luto nacional por pessoas como Carlos Paredes, José Afonso ou Sophia de Mello Breyner.

Publicado por Joaquim Semeano em 10:10 PM | Comentários (0)

fevereiro 13, 2005

FILMES DAS ELEIÇÕES

Deparei no último sábado, quando seguia com o meu filho para o jardim, com uma manifestação do Bloco de Esquerda. Um contacto, ao vivo, com as eleições, que em geral me têm passado completamente ao lado, sem que sinta minimamente a falta daquelas habituais discussões estéreis. Mas registei o que vi. Subitamente, foi como se assistisse a um daqueles filmes do tempo em que os trabalhadores ainda vinham para a estrada a exigir os seus direitos. Os manifestantes, que não eram muitos, enchiam um dos passeios da estrada, e seguiam resolutamente na minha direcção. Passei para o outro lado, mas fiquei a observar: a multidão avançava, como se tivesse um objectivo definido, e à sua frente, de olhos fixos em algo, seguia, decidido, Louçã, subitamente transformado, para mim, em personagem de cinema, vestido da pele de tantos que, ao longo do século XX, se entregaram à defesa dos direitos dos trabalhadores. Gostei.
Gostei mais do que da cena a que assisti, via televisão, numa reportagem sobre uma sessão de esclarecimentos de Paulo Portas em Almada. A jogar em terreno que lhe é desfavorável, o líder do PP apresentou-se muito sereno, com um ar muito sério e circunspecto. Com esse mesmo ar, mandou calar alguém que, na assistência, dissera alguma coisa mais incómoda. "Meu senhor, estamos aqui para falar com serenidade". Foi mais ou menos assim que PP o meteu na ordem. Como já alguém disse, "o povo é sereno".

Publicado por Joaquim Semeano em 04:07 PM | Comentários (0)

fevereiro 11, 2005

OS OUTROS FELT

Alternativa. Felt. Felt. O melómano encantado julgou estar perante uma preciosidade. Ei, deve ser o primeiro dos Felt! Não conheço, vou comprar. Ingénuo, não olhou para mais, a não ser para a capa, de um cor-de-rosa incendiado, com um ser estranho, de olhos enormes, a olhar para cima. Parecia Felt, e antes de o colocar no leitor de CD o melómano já ouvia o sotaque britânico de Lawrence e as suas guitarras doces e serpenteantes. Mas em vez disso veio outro som: melodia, vozes a puxar para o psicadélico, guitarras nervosas, uma batida jazz e constantes incursões pelo blues. Aqueles Felt eram outros. Gravaram este disco em 1971, e nada mais. Simples, uma coisa única. Raridade absoluta. Os Felt de 1971 são americanos. Comprados por acaso, são agora uma das pérolas da discoteca do melómano. O mercado tem destas coisas.

Publicado por Joaquim Semeano em 11:53 PM | Comentários (1)

O molde

Esperamos sorrisos
em cada esquina.
Uma palmada nas costas,
uma canção,
uma prenda de aniversário.
Esperamos
sentir-nos bem.
Saltar por cima
do buraco na estrada,
não pisar a lama
que nos suja os sapatos.
Aplaudir o vencedor,
esquecer o derrotado,
que aqui não há
lugar para o frustrado.
Foi assim que moldámos
o nosso boneco.
Primeiro fantoche
depois marionete.

Publicado por Joaquim Semeano em 11:42 PM | Comentários (0)

fevereiro 05, 2005

A CIVILIZAÇÃO DO RUÍDO

Estar desatento é uma imagem de marca da nossa sociedade. Uma característica da nossa civilização. Estar desatento significa não dar atenção às coisas mais importantes, mais básicas e fundamentais da vida. É, portanto, não saber viver.
Vem isto a propósito do momento pré-eleitoral que se vive em Portugal. Para falar a verdade, tenho acompanhado pouco, mas aparentemente tenho, talvez, azar, quando acompanho. Mas eu sei que não é azar. Sei que é mesmo assim, porque é a repetição de momentos anteriores, para pior. A política nunca atingiu um nível tão baixo desde que no nosso país vivemos, presumivelmente, em democracia. Os debates são feitos de "clichés"; os candidatos dizem banalidades e já nem prometem grandes coisas. Dão importância e relevo a novidades como, por exemplo, a criação de um vice-ministro para a competitividade...
Mais uma vez, e como tem sido habitual, não se discutem os reais problemas do país, e ninguém parece interessado nisso. Não se ouve o país, o que pensam os portugueses, os problemas e as dificuldades que passam todos os dias.
No fundo, é a repetição do que se passa no mundo. A espécie humana está em crise, talvez em vias de degeneração. Basta ver o que se passou no drama do maremoto no sudeste asiático: enquanto os animais ouviram a terra e perceberam o que se iria passar, o ser humano foi apanhado de surpresa. Está treinado a não se ouvir a si próprio, e muito menos a ouvir a terra. Há ruido demais na nossa civilização.

Publicado por Joaquim Semeano em 11:38 PM | Comentários (0)

A CIVILIZAÇÃO DO RUÍDO

Estar desatento é uma imagem de marca da nossa sociedade. Uma característica da nossa civilização. Estar desatento significa não dar atenção às coisas mais importantes, mais básicas e fundamentais da vida. É, portanto, não saber viver.
Vem isto a propósito do momento pré-eleitoral que se vive em Portugal. Para falar a verdade, tenho acompanhado pouco, mas aparentemente tenho, talvez, azar, quando acompanho. Mas eu sei que não é azar. Sei que é mesmo assim, porque é a repetição de momentos anteriores, para pior. A política nunca atingiu um nível tão baixo desde que no nosso país vivemos, presumivelmente, em democracia. Os debates são feitos de "clichés"; os candidatos dizem banalidades e já nem prometem grandes coisas. Dão importância e relevo a novidades como, por exemplo, a criação de um vice-ministro para a competição...
Mais uma vez, e como tem sido habitual, não se discutem os reais problemas do país, e ninguém parece interessado nisso. Não se ouve o país, o que pensam os portugueses, os problemas e as dificuldades que passam todos os dias.
No fundo, é a repetição do que se passa no mundo. A espécie humana está em crise, talvez em vias de degeneração. Basta ver o que se passou no drama do maremoto no sudeste asiático: enquanto os animais ouviram a terra e perceberam o que se iria passar, o ser humano foi apanhado de surpresa. Está treinado a não se ouvir a si próprio, e muito menos a ouvir a terra. Há ruido demais na nossa civilização.

Publicado por Joaquim Semeano em 11:38 PM | Comentários (0)