Há mais de uma semana que os UHF não saem do leitor de CDs do meu carro. Os U H F, é verdade, lembram-se deles? Pois, o António Manuel Ribeiro, a margem-sul, os anos 80, o rock em português... Bem, podem dizer que isto é nostalgia, que estou a envelhecer, e até haverá quem pense que isto é baixar o nível dos critérios e da conversa... não me interessa. Estou a redescobrir uma banda marcante, e que infelizmente foi totalmente relegada para o esquecimento pelas rádios e televisões em Portugal.
Para mim, o desaparecimento dos UHF sempre foi um mistério. Habituei-me, desde bastante jovem, a vê-los grandes, figuras do topo de cena, "pais" do rock em português, ídolos da malta nova. Subitamente, deixei de ouvir falar neles. Na rádio, na televisão, nos jornais. Nem sinal de António Manuel Ribeiro e companheiros de rumo.
Há cerca de um ano, mão amiga apresentou-me um CD duplo dos velhinhos de Almada. Chama-se "Eternamente", e é uma espécie de colectânea: vai desde os "Cavalos de Corrida" a uma versão disco do "Angie" dos Rolling Stones. Produção excelente, e uma demonstração notável de como se pode fazer rock, a sério, usando a língua portuguesa em 98 por cento dos temas. Demonstração de talento, do som muito próprio dos UHF, da capacidade para dizer coisas importantes sobre a sociedade que nos envolve. Uma lição destes velhinhos: se ouvirem temas como "Modelo Fotográfico" ou "Rapaz Caleidoscópio", os próprios Xutos, que hoje gravam coisas como "Ai se ele cai", devem corar de vergonha.
Alguma coisa, pois, está mal no mercado português, quando os UHF são postos de parte, e aquilo que nos é oferecido, dia a dia, são temas banais em inglês, cópias do que se vai fazendo lá por fora, e que reflectem um total alheamento à realidade do país. A música portuguesa está mal. Mas os UHF vão, na sombra, fazendo as músicas que fizeram a mística da margem-sul.
No último número da revista Uncut é publicado um notável texto sobre o grupo inglês de pop-rock The Sound e o seu disco "From the Lion's Mouth", considerado injustamente esquecido pela crítica. O génio do mentor do grupo, Adrian Borland, é comparável ao de Bono, Ian Curtis ou Ian McCulloch. Mas, vá lá saber-se porquê, os The Sound nunca foram bafejados pela benção da indústria.
A história dos The Sound é um bom exemplo de como a crítica musical pode ser injusta e implacável. Porque eles eram, de facto, geniais. Eu tenho um disco deles, e é dos melhores tesouros da minha discoteca. Uma relíquia, já, porque hoje os grupos de pop-rock não cantam nem compõem assim. Poucos são capazes de criar aquela atmosfera. Os The Sound eram escuros sem ser góticos, eram amargos mas não deprimentes. O disco roda e parece levantar-se um nevoeiro, o vermelho e o azul escuro das suas músicas, e a voz de Borland parece contar a história do cavaleiro sem cabeça.
Porém, Borland e os The Sound nunca foram reconhecidos. Segundo conta a Uncut, um dia o incompreendido Adrian atirou-se para a frente de um comboio e morreu. Como já fizera com os seus discos, a indústria continuou impassível. Afinal, era menos um esquizofrénico para atrapalhar.
Quando a mosca morde, o elefante abana as orelhas. E o ser humano, que se crê em estado de superdesenvolvimento, pouco mais faz do que isso quando é incomodado. À espécie humana falta ainda a capacidade para ver mais longe. Ver para lá das feridas actuais.
O corpo da Terra foi perigosamente atingido no sudeste asiático, e ainda não vi serem disto tiradas as devidas ilações. Desperadamente, o mundo ocidental acorre à ferida, tentando tapá-la, estancar o sangue com milhões de euros e dólares de ajuda. Em breve, depois de mais de cem mil mortos, a maior catástrofe de que há memória, o mundo voltará à sua vida do dia a dia, eventualmente coxeando um pouco durante uns tempos, para depois recuperar e apenas lembrar o fatídico dia com um memorial.
Porém, em vez de nos convencermos de que as catástrofes naturais são inevitáveis e fazem parte do inexorável fim do mundo, deveríamos ser capazes de reflectir sobre o que se passou e em pensar no que fazer para evitar outras catástrofes... que são evitáveis: não desdenhemos das batalhas ecologistas; não coloquemos, à frente dos destinos do mundo, os interesses financeiros de grandes grupos económicos, em vez de acautelar o degelo, a destruição da camada de ozono e a poluição das águas do mar até limites verdadeiramente indecentes. Se não o fizermos, em breve até poderemos ter completamente cicatrizada a ferida do sudeste asiático. Mas o resto do corpo da Terra poderá estar fatalmente doente.