dezembro 17, 2004

A DESCOBERTA DE MIGUEL TORGA

Estou a descobrir, aos 39 anos, que Miguel Torga foi um extraordinário escritor. Porque tinha curiosidade, comecei a ler "A Criação do Mundo", um livro dividido em seis dias. Para Torga, o mundo foi, pois, criado em seis dias. Ao sétimo, Torga descansou. Tanto trabalho, porém, não chegou para fazer dele um dos eleitos na educação obrigatória dos nossos filhos. Eça de Queiroz e Camilo Castelo Branco sempre foram obrigatórios, mas Torga, esse, nem por isso. E é uma pena. O seu português é do mais puro que existe, é a própria alma da língua, e a sua visão do país é de uma lucidez extraordinária. Conheço bem os seus personagens, aquelas terras de província, o confronto das gentes da aldeia com a cidade. É a memória de um Portugal que desaparece mas constitui, inapelavelmente, a matriz do país que hoje se pretende moderno. Ler Miguel Torga é uma lição de português e de humanismo. Não devíamos deixar tão esquecidas estas personagens extraordinárias da nossa cultura.

Publicado por Joaquim Semeano em 11:55 PM | Comentários (0) | TrackBack

dezembro 11, 2004

HE'S MY ELVIS; HE'S MY GUY

Quase desde o início desta aventura dos blogues que tinha a intenção de colocar aqui um post sobre Jeff Buckley. Jeff, ele mesmo. Para quem não sabe, trata-se do melhor roqueiro dos finais do século XX, o melhor intérprete da tradicional músico anglo-saxónica, tão versátil que é capaz de passar, numa só música, do hard-rock ao blues, passando pela canção francesa e pelos sons orientais. Quem é este homem, capaz destas proezas? Pois, alguém sobrenatural.

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É que Jeff deixou-nos há alguns anos, apenas com um álbum de originais gravado, o sagrado "Grace". Após a sua morte prematura, sucederam-se no mercado uma série de gravações do génio, desde espectáculos ao vivo a temas originais que estavam em embrião na altura do seu desaparecimento. Os discos continuam a surgir no mercado com tanta regularidade que é como se Jeff estivesse vivo.
Este impulso, de escrever sobre Jeff Buckley, surgiu-me porque hoje, enquanto fazia, de carro, o caminho entre casa e o emprego, estive a ouvir uma dessas gravações e regalei-me a ouvi-lo interpretar um tema de Nusrat Fateh Ali Khan. E o que me impressionou, para além do brilhantismo da interpretação (natural em Jeff Buckley) foi o início, a sua conversa com o público.
"He's my Elvis; he's my guy", diz Jeff, referindo-se a Nusrat, um extraordinário cantor e intérprete paquistanês. É, desde logo, sensacional ouvir isto de um jovem cantor norte-americano: o seu Elvis não é o Presley, mas um Ali Khan representante de uma sociedade e de uma cultura completamente diferentes; é desta abertura de espírito que é feito o génio de Buckley.
Depois, desafia a plateia: "Posso cantar qualquer canção dele. Querem escolher?". Os espectadores riem, estupefactos, pensam que ele está a gozar. Como ninguém, obviamente, é capaz de escolher uma canção de Nusrat Fateh Ali Khan, Jeff avança: "Vou cantar a primeira canção que aprendi dele".
Aos primeiros requebros da voz, tipicamente àrabes, ouvem-se risos na plateia. Mais uma vez, pensam que Jeff está no gozo. Mas ele não pára. Segue, brilhante, único. A sua interpretação termina com o público a bater palmas ao ritmo oriental da música, a plateia perfeitamente rendida à beleza de um som que, vindo do outro lado do mundo, consegue unir assim ocidente e oriente. Uma lição.

Publicado por Joaquim Semeano em 10:39 PM | Comentários (2) | TrackBack