outubro 28, 2004

UMA GRANDE MULHER DO IRÃO

A minha casa chegou na passada semana, com algum atraso, o número de Agosto da Ler. Com atraso, mas bem a tempo. Na capa, um título irresistível: "Satrapi -- uma voz do Irão". Lá dentro, uma entrevista notável, conduzida por Inês de Medeiros (!) a uma grande mulher iraniana, Marjane Satrapi.
Com extraordinária lucidez, Satrapi conta porque deixou o seu país com 14 anos de idade: a decepção de reencontrar a ditadura, depois da esperança criada com a queda do Xá. Emigrada para a Áustria, pensava encontrar aí um mundo mais justo e solidário. Encontrou o racismo e o desprezo sempre que dizia ser iraniana. Depois de ter chegado à miséria absoluta, viajou para França, onde a publicação de uma banda desenhada, intitulada "Persépolis" -- e que é, basicamente, a sua própria história -- a tornou conhecida e finalmente respeitada.
Há quatro anos que Satrapi não vai ao seu país. Sem nada ter feito para isso -- a não ser procurar uma vida mais justa e publicar uma banda desenhada -- tornou-se num dos símbolos da resistência no exterior. Mas fala sem papas na língua, e a própria civilização ocidental, pretensiosa da sua democracia, se vê despida pelo seu olhar frontal. Por isso diz que não existe democracia, considera indecentes os três minutos de silêncio que o mundo dedicou às vítimas do 11 de Novembro e pede a nós, ocidentais, que não olhemos todos os árabes como se carregassem bombas prontas a explodir.
Satrapi defende a coragem acima de tudo; como ela diz, não há nada pior para a humanidade que um humano com medo.

Publicado por Joaquim Semeano em 12:24 AM | Comentários (1) | TrackBack

outubro 20, 2004

OS SELVAGENS -- Porque havia uma luz

the_universe_and_man.jpg
O que é que nos atrai nos nossos movimentos, se não a curiosidade? E, por arrastamento, o inconformismo, a sede de mexer algo que está parado? Um pouco como as crianças, na descoberta do mundo à volta.
Os Selvagens também são assim. Sempre irrequietos, fugindo à mão do próprio criador. Alguns destes Selvagens é necessário semear em terras da Madeira e dos Açores. A crer pelas últimas eleições, falta por lá quem espreite para lá da cúpula que o rodeia. Por cá, no continente, também é um pouco assim, mas não tanto, por enquanto. Ainda há quem se mova, porque havia uma luz.

A meio da estrada, Rodin parou. Encostou o carro e saiu. O ar estava estranho, cheio de vozes desconhecidas. Rodin sentiu-se envolvido numa espécie de fumo, e subitamente foi como se sufocasse, não suportasse mais aquele lugar e o que em frente se desenhava.
Estava para voltar ao carro, disposto a dar meia volta e procurar a mulher fascinante da noite anterior, quando lhe pareceu ver, ao longe, na planície, um homem vestido de modo exuberante.
-- Um palhaço! -- quase gritou.
Alguém que o viu partir a correr achou que algo de horrível se tinha passado. Pararam alguns carros. Mas, ao longe já, Rodin corria sem se aperceber de nada mais. Havia um palhaço, ali, por detrás daquela cabana.
--Lizarede. Lizarede é o meu nome.

O rapaz olhou-o, descontraidamente, como se não se importasse com a sua presença ali. Acordara havia pouco, com a lentidão de quem nada mais tem a perder no mundo. A primeira coisa que fez foi puxar de um cigarro. Quando o acendeu já tinha a cabeça fora da janela, olhando com uma curiosidade infinita a rua deserta.
Ainda não avistara Lizarede quando murmurou:
-- Que terra triste! Ninguém para alegrar as ruas.
Só depois é que se virou e deparou com o velho, de pé, fitando-o com um ar assustado e plenamente hesitante.
O rapaz sorriu.
-- Afinal sempre há alguém neste cantinho do mundo. Viva! Que fazes aqui, quem és tu?
-- Não sou daqui.
-- Pois, claro que não. Aqui não há ninguém. Reparaste quando chegaste? Havia alguém à tua espera? Alguém que seguisse com atenção os teus passos? Alguém que perguntasse quem eras?
-- Não sei. Não entrei nas outras casas. Só nesta, porque havia uma luz.
-- Uma luz? Ah, sim.

Publicado por Joaquim Semeano em 12:55 AM | Comentários (0) | TrackBack

outubro 11, 2004

OS SELVAGENS - Uma viagem ao passado

Mais de um mês depois, reencontrei os Selvagens. Tanta ausência tem explicação: pouco tempo, alguma falta de ânimo, e uma verdadeira desilusão com o mundo em que vão crescendo os nossos filhos. Não é só a educação, é tudo, neste país falso, cada vez mais virtual, que nos faz pensar, e pensar, e ganhar vontade de fazer algo verdadeiramente radical. Valha-nos a literatura, e estes saltos ocasionais num universo onírico, onde mergulho, com gosto, cada vez que abro a gaveta.

São viagens ao passado; numa dessas viagens, descobri que tenho um montão de revistas que não poderei levar para a minha nova casa: uma colecção da "Ozono", que assinei com todo o gosto, grande entusiasmo e encanto, e que entretanto acabou, claro, exterminada como são todas as coisas boas e decentes neste país; e bastantes "Science & Vie", algumas delas já antigas. aglomerados de conhecimento que não tenho possibilidades de transportar comigo. Se alguém estiver interessado, avise.

Depois de muitos anos, havia qualquer coisa de esquisito no monte. Havia um homem. E um carro, grande, bonito, moderno. Daqueles que chamam logo a atenção.
Hector, que vivia em frente, acordou e logo olhou pela janela. Não se via ninguém. Mas ficara-lhe uma impressão incómoda de um vulto na noite anterior. E, subitamente, assustou-se. Pensou que poderia ser um ladrão. Alguém que ali penetrasse, sorrateiramente. Mas para levar o quê?
Intrigado, o velho saiu e, perante as redondezas sem ninguém, dirigiu-se para a casa. Avançou cautelosamente, com medo que de súbito lhe surgisse pela frente um qualquer desconhecido. Interrogava-se sobre o que faria, o que diria então. Não tinha desculpas para andar ali. Aquele lugar estava abandonado há muitos anos.
Empurrou a porta e não precisou de muita força para que ela se abrisse. Estava apenas encostada. Um descuido dos anos. Entrou, e logo lhe vieram à memória tempos antigos, coisas que ali tinham acontecido. Hector emocionou-se. Não se encontrava entre aquelas paredes há quase uma eternidade, e andar por ali era uma viagem ao passado, um perturbante folhear das suas memórias. Não resistiu, e avançou. Era uma casa grande como a eternidade.

Publicado por Joaquim Semeano em 12:01 AM | Comentários (2) | TrackBack