É bom ser espantalho. Alguém tem dúvidas. Como diz Adéle, os pássaros poderiam vir pousar-nos nos braços. Porque não vêm, todos os dias?
-- Adéle... e se tu fosses um espantalho?
Se ela fosse um espantalho, imóvel ficaria, a olhar para ele e para as pessoas que passavam por perto.
-- Se eu fosse um espantalho, os pássaros vinham pousar nos meus ombros! E era bom! Muito bom!
Então, Dúlio empurrou-a. Colocou-a mesmo ao lado do boneco de palha, e pediu-lhe que ficasse quieta. Ela só não pôde deixar de sorrir. Começou por achar aquilo engraçado. Depois, ele pediu-lhe que falasse.
-- Diz qualquer coisa!
-- O quê?
-- Qualquer coisa...
Um dedo empurrando o lábio superior, os olhos fixos no céu azul claro:
-- A mãe está a chamar. Lá longe.
Era verdade. Ouvia-se a voz angustiada, atravessando os montes. Dúlio assustou-se.
-- Vamos. Senão, ela ainda virá aqui.
Não gosto de velocidade na estrada. Sou contra. Mesmo. Esses são os selvagens de que não gosto. Muitas vezes, são criminosos. Mas, e isso acontece muito em literatura, às vezes os personagens escapam-nos. E nós não temos que gostar sempre deles, pois não?
Ali estava o carro, imóvel, fixando-o em ar de repreensão. Rodin esteve quase a pedir-lhe desculpa. Achou-o maravilhoso. Resplandecia como um diamante, os seus olhos não o largavam, quase haviam lágrimas naquelas pupilas metálicas, uma mágoa intensa pelo abandono a que fôra votado.
Arrependido de tudo, Rodin abriu respeitosamente a porta e entrou. Passou os dedos pelo volante, acariciou o couro. Rodou a chave e o carro estremeceu. Estavam reconciliados. Rodin saiu com ele a toda a velocidade, e a aldeia assustou-se.