Selvagens? Os gatos, pois claro. Eis a raça a invadir esta história, sabe-se lá com que estranho objectivo...

Este postal, e outros que tal, podem ser vistos na net
Passo a passo, Lizarede entrou na desconhecida casa. Como se descobrisse um outro mundo. De certo modo, sempre desejara tal coisa. Era uma descoberta irresistível. Para lá da luz que iluminava toda a rua, uma porta de madeira. E para lá da porta uma sala completamente desarrumada. E na sala desarrumada um jovem adormecido.
Lizarede admirou-o, pois era de indiscutível beleza. Tinha os cabelos encaracolados, muito negros, e era grande como um gigante. Estava deitado no chão da sala, apenas em cima de uma esteira antiga. Dormia profundamente.
A um canto, havia um rádio, do qual saía a música mais estranha que Lizarede alguma vez ouvira. Uma impressionante mescla de ruidos que só podiam ser provocados por seres anormais. Aliás, tudo ali parecia anormal, constatou logo a seguir o nosso velho sonhador. Por isso estavam as coisas tão desarrumadas. Por isso, o rapaz dormia quase nu, tenho espalhado a camisa e as calças pelo chão da sala. Por isso, as janelas ficavam junto a este mesmo chão, como se ele olhasse para o exterior enquanto estava deitado. Por isso, havia um piano a um canto, e em cima das suas teclas um gato com óculos escuros.
Os Selvagens, como é seu timbre, andavam fugidos. Depois de muitas voltas, reencontraram-se aqui, no Bosque. Por isso, eis o capítulozinho seguinte, na selva da literatura.
-- O que estás a fazer? -- perguntou Adéle, irmãzinha de Dúlio. É pequenina, muito mais pequenina do que ele. Duas tranças louras e um rosto redondo, muito vermelho.
Por acaso, deu por ele ao longe.
-- Olha, o meu irmão!
E correu, apanhando-o em contemplação esquisita perante um espantalho. Um boneco que não tinha nada que ver.
Dúlio olhou-a espantado. Não esperava encontrá-la aqui.
-- Que fazes aqui?
-- Nada... e tu?
-- Nada... e que tens tu com isso?
Assim, neste desentendimento permanente, os dois se puseram a olhar o imóvel espantalho. Era majestoso, o boneco. Olhava-os fixamente e não dizia nada. Como se soubesse tudo do mundo.
-- Já imaginaste... -- disse, subitamente, o entusiasmado Dúlio -- Já imaginaste... se ele falasse! As coisas que nos poderia dizer!
As férias acabaram. Depois do Euro 2004, do PR, do Santana, dos incêndios, dos 44 graus e da chuva em Agosto, de que hei-de falar? Em que hei-de pensar? Como orientar este blog, cada vez mais selvagem, cada vez mais difícil de dominar? Que reflexões merece este nosso mundo? Devemos ser mais violentos, mais duros, na nossa visão, ou suavizá-la, numa perspectiva optimista, acreditando que o Kerry ganhará as eleições e será diferente do Bush, se calhar com alguma ingenuidade?
Sinceramente, para recomeçar apetece-me não ir tão longe e ficar apenas aqui pelo nosso cantinho. Como as férias nos permitem aligeirar os pensamentos, ouvi muita música e dei comigo a irritar-me com o rumo que os Xutos e Pontapés tomaram. Andam agora por aí a fazer-se ouvir, a toda a hora, com uma música intitulada "Ai se ele cai", uma coisa lamechas, uma letra de menino de coro, que nada tem a ver com os Xutos que eu conhecia e admirava. Espero que seja um engano, uma coisa passageira, tipo má disposição, e que depois eles voltem com a capacidade de protesto de outros tempos. Não é por terem 25 anos de carreira que vão ficar xéxés, pois não?