maio 21, 2004

OS SELVAGENS - O lobo sofre

Solitários, todos nós somos lobos. No interior de cada um de nós, há um grito prestes a ecoar. É inerente à espécie humana, essa constante insatisfação.

Eis o lobo indeciso. À sua volta, gravitam lentamente dezenas de pessoas desconhecidas. O lobo procura não se enfurecer. Esforça-se para que a fúria não tome conta do seu espírito, passa constantemente com a língua pelos lábios sedentos, enquanto o fogo se intensifica, ao longe, bem ao longe no seu coração. O lobo sofre. Ninguém à volta dele se apercebe. Mas o lobo sofre atrozmente.
Do sítio onde está, ele olha. Mas nada mais consegue fazer. Está preso ao chão, como uma estátua que alguém ergueu. Imobilizado, é assim que ele se sente. Mas no fundo, bem no fundo de si mesmo, o lobo sente uma vontade irresistível de mergulhar no abismo. Como se tivesse asas e fosse realmente capaz de voar.

Publicado por Joaquim Semeano em 01:16 AM | Comentários (2) | TrackBack

OS SELVAGENS - Marilina Sea fugiu

Voltemos ao convívio dos Selvagens. Sem perplexidades. Ser selvagem é, no mundo de hoje, cada vez mais, ser Sério.
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O desenho é da autoria de Jo Ann Ugolini

Por causa da luz que subitamente invadiu a planície, Marilina Sea fugiu. Rodin ficou a olhá-la, com uma surpresa imensa. Mas ela corria como se tivesse visto um fantasma. Porém, o sol chegara, imprevistamente, e entre os dois a aproximação tornara-se subitamente impossível. Não havia mais lua, não havia mais nenhuma estrada no sentido do mundo esquecido. Quando a luz chegou, foi como se se fechassem os olhos dos dois.
Ao longe, no cimo do monte, avistou-se a figura de um qualquer camponês. E ela, Rodin sentiu-o, estremeceu como a criança apanhada numa brincadeira proibida.
-- Espera! Onde vais?
Contudo, nada pôde fazer. Faltaram-lhes reflexos, fugiu-lhe a decisão. Rodin viu Marilina afastar-se em desesperada corrida pela planície. E ao longe, num indefinido espaço, julgou ver um palhaço sorridente.

Publicado por Joaquim Semeano em 01:01 AM | Comentários (0) | TrackBack

maio 14, 2004

OS SELVAGENS - Por causa dessa luz

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Lizarede... sabemos agora que é um velho. E que mais? Que procura algo, talvez uma luz ao fundo da rua. É desta procura constante que deve fazer-se o crescimento do homem enquanto espécie. Da procura da LUZ.

Na internet, também podemos encontrar muitas luzes. Nesta página, por exemplo.

Ao acaso, Lizarede atravessou a planície. Que era longa como poucas, longa como se na realidade não existisse. Quem o via ao longe, pensava que ele estava louco. Não faltou quem referisse ter o velho fugido de um asilo próximo. Mas Lizarede, solitário, estava num mundo só dele, que só a ele pertencia. Andando, não via ninguém. Caminhava com cega confiança no instinto, não perdendo a esperança de a todo o momento reencontrar o arco-íris, com aquela cor misteriosa, névoa que encerrava os mais impensáveis segredos.
Mas, em vez dele, o velho caminhante encontrou uma aldeia, já a noite descia sobre o local. Uma aldeia pequena e silenciosa, como se ali não habitasse ninguém. Era atravessada por uma rua estreita e deserta, que estaria totalmente escura se não fosse uma luz, lá ao longe, ao fundo, talvez já para lá da aldeia. Por causa dessa luz, Lizarede avançou.

Publicado por Joaquim Semeano em 01:09 AM | Comentários (0) | TrackBack

OS SELVAGENS - Os traços brancos do giz

Vemos sempre qualquer coisa para lá do que olhamos. Mas até onde podemos ver PARA LÁ? Penso que aqui estará a resposta para algumas das interrogações do ser humano e dúvidas da nossa actual sociedade ocidental. Até que camada conseguimos ver PARA LÁ?

Os números que a professora escrevia no quadro eram completamente incompreensíveis. Riscos, apenas riscos. Dúlio olhava, mas era como se não houvesse ali nada. De tanto olhar, acabou por confundi-los. Pensou estar a ver coisas. Os traços brancos do giz começaram a mover-se lentamente, e depois cada vez mais depressa. Até que, todos em conjunto, acabaram por formar qualquer coisa parecida com um espantalho.
Vagamente, Dúlio apercebeu-se que a professora perguntava qualquer coisa a alguém perto dele. Fez um tremendo esforço para abrir os olhos, mas a verdade é que eles já estavam abertos. Mas afastou-os dos traços de giz, olhou para trás e, lá ao fundo, á porta da entrada da sala, estava ele, de rosto sorridente, quase zombeteiro. O palhaço. E ninguém o via!
Tímidamente, Dúlio sorriu-lhe. E o outro pareceu corresponder, mas não saiu do sítio onde estava. O rapaz apanhou um enorme susto quando a professora lhe pousou a mão sobre o ombro.
-- Sempre distraído...

Publicado por Joaquim Semeano em 12:52 AM | Comentários (1) | TrackBack

OS SELVAGENS - Não acredito na reincarnação

Um encontro, um breve e curto encontro, tudo pode mudar. O bater das asas de uma borboleta no outro lado do mundo. Por aí reincarnamos, por essa velha matriz.

-- Conheces-me, tu?
Ela olhava em frente, na direcção da lua, finalmente rainha do firmamento. Os seus olhos claros e o modo decidido fascinaram Rodin. Durante breves segundos, pensou que a conhecia. De um momento algures.
-- Não acredito na reincarnação. -- disse, como se falasse consigo mesmo.
-- Eu também não. -- disse ela, olhando-o, sorridente.
Voltaram a desviar os olhos para a lua. Como se ela fosse uma estrada para um lugar longínquo. Ao fundo da estrada, a melodia inesquecível. A noite já não era tão silenciosa.

Publicado por Joaquim Semeano em 12:42 AM | Comentários (0) | TrackBack

OS SELVAGENS - Um verde profundo

Mais um passo para Os Selvagens. Para os compreendermos, a esses seres, chamados humanos, que invadiram o mundo e o transformaram. Até se transformaram a si próprios.
Como sempre, a literatura permanece um espaço de perdição. Perdido, o herói reencontra-se.

Devia ser um sonho. Ou uma nova alucinação. Lizarede acordou e não acreditou nessa realidade. O rio, onde está o rio? Na sua frente, apenas ervas. Um verde profundo, um mistério indecifrável. E para lá delas, a planície. Nova e desconhecida. Lizarede sabia que não sonhava. Mas não sabia o que realmente se passava.
Levantou-se com a lentidão de quem quer recusar tudo o que está à sua volta. Avançou para o desaparecido rio. Ali em baixo, no vale, restavam as ervas, e um fio de água, lágrima grande na manhã. Mãos abertas, como quem procura segurar algo indefinido, Lizarede avançou, não se sabia para onde. O arco-íris desaparecera.

Publicado por Joaquim Semeano em 12:36 AM | Comentários (0) | TrackBack

maio 06, 2004

OS SELVAGENS - Na direcção do espantalho

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O espantalho é um susto ou um camarada de brincadeira? Para Russell W. Gordon é um motivo de arte. Boa arte. Visitem-no na internet.

Cada passo era difícil. Dúlio receava o que pudesse encontrar. Manhã cedo, foi pela berma da estrada, na direcção do espantalho. Não havia nem um pássaro pelas redondezas. Passava um carro de meia em meia hora.
Em silêncio, apenas com o ruído dos pés sobre a estrada, Dúlio caminhou, esperando que a cada momento o terrível palhaço lhe saltasse ao encontro. Mas não. E o espantalho lá estava, numa terrível inactividade. Como uma estátua.
Mais uma vez, o rapaz sentiu-se revoltado.
-- Porque não falas? Porque não dizes nada? Porque não te deram voz?
E que voz seria, se ele pudesse falar?

Publicado por Joaquim Semeano em 01:20 AM | Comentários (0) | TrackBack

OS SELVAGENS - Um longínquo chamamento

Há um selvagem no interior de cada um de nós. Um animal não necessariamente irracional. Mas independente, livre, capaz de agir por si próprio, sem perguntar à nossa consciência se é ou não correcto. Devemos respeitar esse animal. E conhecê-lo.

De vez em quando, procurava reencontrar o caminho de casa. Para lá das esquinas dos grandes edifícios da cidade, havia sempre um longínquo chamamento, ao qual o lobo em sofrimento não conseguia resistir. Nos primeiros tempos, quase corria. Subia a montanha como quem sobe ao céu, sedento de reencontrar os vales familiares.
Depois, a pouco e pouco, passei a ficar mais cansado. Enquanto os anos passavam, o lobo perdia o seu entusiasmo.

Publicado por Joaquim Semeano em 01:05 AM | Comentários (0) | TrackBack

maio 05, 2004

OS SELVAGENS - Não me lembro de escrever


Como a literatura é um vício que não nos larga, aqui se inicia mais uma história. Os Selvagens. Porque a memória é uma coisa que perturba, é uma preocupação crescente nos dias de hoje, em que cada vez perdemos mais depressa os contactos com as nossas raízes. Corremos o risco de um dia não sabermos quem somos.

Noite escura, Rodin perdeu-se pelas redondezas. Atravessou com uma ousadia desconhecida os campos de trigo. Gostou de aspirar o ar fresco, pisar as ervas da planície, tomar finalmente conhecimento do silêncio profundo que este mundo pode conter. Com um misterioso sentimento de felicidade, sentou-se. Sentiu-se livre. Absolutamente livre. Como se nada existisse à sua volta, como se ele fosse um espectador privilegiado, um deus no alto de tudo. Era algo que não recordava de outros tempos.
Aliás, que guardava Rodin na sua memória? Nada. O seu passado fundia-se com as luzes da cidade.
-- Costumavas escrever. -- disse uma voz nas suas costas.
Voltou-se e viu uma mulher. Alta, esbelta, longos cabelos negros, provocação no olhar.
Afinal, não estava só. Ao seu lugar divino havia mais alguém capaz de chegar.
-- Não me lembro de escrever.
-- Como é possível?
-- Lembro-me de assinar coisas. Não me perguntes o quê.
-- Fazias os outros ler.
-- Lembro-me de escrever num computador. Lembro-me de conduzir um carro. Lembro-me de ver televisão.

Publicado por Joaquim Semeano em 12:56 AM | Comentários (0) | TrackBack

A ESTRADA - Nem rasto daquela sombra que por ali passara

Fim da Estrada. Ou talvez não. Alcaluz lá vai, para um local longínquo, nas brumas da nossa imaginação. De certa forma, nunca o perderemos de vista.

Sob uma luz mágica, a aldeia conhecia uma animação completamente inesperada. As pessoas tinham saído à rua, e nos degraus de todas as portas havia gente sentada, a ler um livro como o que Alcaluz tinha na mão. Ele avançou, chegou ao vizinho mais próximo, um homem calvo, de olhos enormes, e viu que estavam em branco as páginas que ele folheava. E o mesmo livro era folheado pela pessoa seguinte, e por todas as outras, até que a aldeia acabou, chegou ao fim, e na frente só havia o escuro da noite.
Durante alguns minutos, Alcaluz ficou parado, de pé, o livro esquecido na mão direita, os olhos perdidos no escuro. Depois, como se não pensasse, foi avançando, passo a passo, até que se tornou invisível quando um dos outros leitores levantou a cabeça e não viu nem rasto daquela sombra que por ali passara.

Publicado por Joaquim Semeano em 12:38 AM | Comentários (0) | TrackBack

maio 03, 2004

A ESTRADA - Não resistindo àquele luar magnífico

A Estrada está a chegar ao fim. É uma velha divagação literária, que por estes dias voltou a encantar-me o olhar. Há coisas que durante anos ficam guardadas nas gavetas e que depois nos chamam e nos reconciliam connosco próprios. Há luares magníficos, a que não se resiste. Moonlight.jpg


Uma lua fantástica entrou por ali dentro e tudo iluminou. Alcaluz abriu a primeira página e uma luz imensa lhe entrou pelos olhos. Durante uns momentos nada viu, mas depois as palavras começaram a surgir. Era a história de um homem perdido, de uma mulher à espera, de um homem regressado da guerra, de uma criança sem eira nem beira.
Alcaluz interessou-se. Mas o seu voltar de página foi interrompido por um som surdo e seco. Ster adormecia e deixara cair o livro ao chão. Alcaluz apanhou-o e, pegando na criança, levou-a para um dos quartos. Ster ficou a dormir, enquanto ele voltou para fora e, não resistindo áquele luar magnífico, saiu à rua e ficou espantado com o que viu.

Publicado por Joaquim Semeano em 01:17 AM | Comentários (0) | TrackBack

Ecce Homo

Um qualquer ente talvez incomodado andou a boicotar-me a entrada da foto do José Mário Branco... bem, já me redimi, eis aqui o herói.

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Publicado por Joaquim Semeano em 01:05 AM | Comentários (0) | TrackBack