Para LER, é mesmo necessário letras impressas sobre o papel? Será?

Não caminharam durante muito tempo. Depois da curva da estrada mais próxima, apareceu uma pequena aldeia, parada e silenciosa. Não havia ninguém junto às casas, e era como se já todos tivessem recolhido para passar a noite.
De facto, anoitecia, o céu estava mergulhado num oceano de fogo e cinza. Eles entraram na primeira casa do lado direito, para uma sala modesta, com um sofá comprido, uma mesa e uma lareira pequena, e ela falou-lhes pela primeira vez, com uma voz quente e suave, dizendo-lhes que se sentassem.
Assim o fizeram, como se estivessem enfeitiçados.
Ela desapareceu num quarto, e demorou-se uns dois minutos. Quando voltou, trazia dois livros na mão, e ofereceu um a Alcaluz e outro a Ster. Estupefactos, eles ficaram com os olhos postos nas capas castanhas, sem letras nem desenhos.
-- Quero que leiam. Será o primeiro passo para se formarem como pessoas. -- disse ela, e nenhum deles compreendeu. Era como se ela falasse uma outra língua.
Mas Alcaluz abriu o livro. Uma página em branco, a seguir outra página em branco, e depois mais outra. Todas eram páginas em branco. O próprio Ster se surpreendeu com a ausência de palavras. Os dois enfeitiçados ficaram tão silenciosos como as páginas, mas nos seus pensamentos haviam tantos diálogos como naquele livro fascinante e misterioso.
Ela sorriu perante o espanto deles, e a seguir sentou-se, tranquila, divertida, trincando uma maçã. Ofereceu uma a cada um deles e disse-lhes:
-- Leiam. Não percam tempo. Que os dias passam e não esperam.
Levantou-se e foi à janela.
-- Vejam que já anoitece. Quantas páginas são capazes de ler até o dia nascer?
Regressamos à Estrada, com o perdido Alcaluz. Talvez nestas andanças literárias encontremos respostas para as nossas interrogações. Talvez.
O rapaz chamava-se Ster e vinha de um sítio longínquo. Era só isso que ele sabia dizer. Não se lembrava de nada mais, nem de um café isolado no meio do caminho.
Os dois perdidos andaram durante muito tempo, até que o desespero de Alcaluz cresceu tanto que não mais conseguiu andar, pensar ou ver. Parados junto a uma àrvore velha e vergada ao sabor de muitos ventos, em novo momento de indecisão se encontraram.
Até que veio uma mulher. Não a do café, mas outra, diferente, maior e mais bonita. Para Alcaluz, era a mulher mais bonita que alguma vez encontrara. Trazia um vestido fino e branco, quase transparente, enfeitado por muitas flores, e calçava sandálias de Verão. Era alta e elegante como nenhuma outra. Tinha cabelos castanhos claros, e os olhos grandes e muito escuros, negros mesmo, extraordinariamente profundos e expressivos.
Alcaluz viu, pelo olhar dela, o que estaria nesse momento a sentir. O encanto, o maravilhoso encanto da descoberta. Ela olhou fixamente para a criança, como se a reconhecesse de algum lado, e depois olhou para Alcaluz e sorriu-lhe, como se o pretendesse arrastar, enfeitiçado.
Sem uma palavra, chegou junto a eles, parou durante dois minutos, e a seguir fez-lhes um sinal para que a seguissem. E caminhou, pois era certo que eles a seguiriam.
Tinha 9 anos quando se deu o 25 de Abril. Vivia numa pequena aldeia do Ribatejo, e mal conhecia Lisboa. As grandes cidades e o mundo conhecia-os através da televisão, mas pouco. Que na aldeia havia poucas televisões, e até eram a preto e branco. Eu ficava no café a ver as séries de aventuras. Tinha uma vaga noção de que quando fosse grande teria que ir para a guerra. Porque todos os homens tinham que ir.
Com o 25 de Abril gerou-se a esperança. Talvez eu já não tivesse que ir para Angola ou Moçambique, como o meu pai. Talvez eu nem precisasse de ir para a tropa. Talvez a vida melhorasse, as pessoas passassem a ter direitos e a poderem conversar livremente umas com as outras.
Com o 25 de Abril, a minha aldeia mudou. Criou-se uma Associação para as pessoas conviverem, reunirem-se, conversarem, beberem café, verem cinema, praticarem desporto. A minha aldeia teve direito a saneamento básico, e em breve todos tínhamos água, luz e televisão em casa. Os meus 9, 10, 11 anos foram um período para abrir os horizontes. Para crescer, á medida que o mundo crescia à minha volta. Para perceber o que gerara o 25 de Abril, e também o que ele poderia gerar a seguir.
Em breve, e depois daqueles primeiros anos de entusiasmo, comecei a desiludir-me. Nem todos os sonhos de Abril iriam ser cumpridos. E fui crescendo com essa noção, cada vez mais forte, que o fogo da revolução se extinguia rapidamente, a caminho das cinzas. Trinta anos depois, só restam as cinzas. Estas, que nos alimentam a memória. O 25 de Abril mudou as nossas vidas, mas hoje é sobretudo uma memória.
Não temos que ir para a guerra em Angola ou Moçambique, mas os nossos soldados têm que ir para o Iraque. Podemos conversar livremente, mas convém não afrontar o patrão. Temos televisão mas ela não tem qualidade. Temos água e luz mas sobrevivemos com empregos cada vez mais precários. E olhamos em frente e temos medo: que Segurança Social? Que protecção no trabalho? Que educação para os nossos filhos? Que saúde? Que cultura? Que mundo estamos a construir?
Tim Boucher é um artista com uma página na net que vale a pena visitar. Os seus desenhos colam-se bem nesta história, com humor e sátira suficientes para passarmos a entender o nosso mundo de uma forma mais crítica. Este rapaz perdido é apenas um exemplo. O resto também são exemplos de perdição pela arte.
Quando o silêncio voltou, Alcaluz viu que tudo mergulhara na escuridão da noite e que, ao seu lado, o rapaz chorava. Sentado agora sobre a terra que tanto o entusiasmara, chorava como uma criança que realmente era, e tinha então tudo de humano e nada de sobrenatural. Alcaluz não teve mais medo nem espanto. Apenas se chegou junto a ele e segurou-lhe nos ombros.
-- O que se passa? Porque choras?
Mas ele chorava tanto que não conseguiu articular qualquer palavra. Alcaluz puxou-o e abraçou-o. O rapaz chorou no seu ombro, e novo sentimento estranho voltou a apoderar-se daquele homem perdido. Sentiu-se subitamente responsável por aquela criança que parecia tão desamparada. Olhou-lhe os cabelos louros e achou que eram os mais bonitos que alguma vez vira num ser humano. Apertando-o, sentiu-lhe o sangue correr quente e acelerado nas veias, e pensou que era uma vida que não se deveria perder. Mas finalmente o rapaz parou de chorar e Alcaluz perguntou-se o que fazer a seguir. Ele também estava perdido e não sabia nada do mundo.
-- Conheço um café onde podemos descansar. Vem. -- disse-lhe, sem nenhuma convicção.
Pois é, a estrada continua. A Estrada, esta aventura em fascículos, que ao mesmo tempo vai acompanhando a nossa vida. Como o herói Alcaluz, o mundo ocidental está numa encruzilhada e procura o seu rumo: espiritual ou material. Cada vez mais radical, que o equilíbrio entre os dois caminhos é cada vez mais difícil.
Havia luz, para lá dos montes. Num sítio perto, era dia claro. O sol repousava ali. Alcaluz avançou, primeiro a medo, depois com coragem, finalmente com a mesma raiva com que saíra da estrada. E então viu as estrelas, milhares delas descendo do céu escuro, numa escadaria imensa, e junto à última delas um pequeno rapaz, de cabelos louros e abundantes, pintados de um fogo perpétuo. Sorria e gritava de alegria, agarrando com ambas as mãos a terra em seu redor e espalhando-a sobre o seu corpo.
Alcaluz parou, assustado. Teve medo daquilo, uma coisa que nunca vira, um rapaz a descer das estrelas e estas a descerem á terra. Mas tinha frio e sentia-se só. Avançou devagar, passo a passo, e quando o rapaz deu por ele parou de arrebanhar a terra e ficou a olhá-lo, com o mesmo sorriso de anteriormente e a mesma curiosidade no olhar.
Quando chegou junto dele, Alcaluz parou, não sabendo o que dizer. Mas ali estava calor. Devia ser das estrelas, pensou. Quis olhar para a mais próxima, mas a luz era tão intensa que foi obrigado a desviar o olhar. E a seguir olhou para o rapaz e viu que ele lhe dizia qualquer coisa. Mas falava tão baixo que nada se ouvia.
-- Mais alto. -- pediu-lhe.
O outro então soltou um grito tão grande como o que anteriormente lhe chamara a atenção, e desta vez Alcaluz ouviu bem e a seguir reparou que as estrelas desapareciam, submergidas no azul escuro do céu.