Acontece todos os anos, a qualquer cinéfilo em qualquer parte do mundo: a banhada do ano. A mim aconteceu-me esta sexta-feira quando, seduzido por uma história de ficção com a assinatura de Philip K. Dick, fui ver "Paycheck" ("Pago para esquecer", em português), desse inefável realizador que dá pelo nome de John Woo.
Entre tantas produções norte-americanas (a maior parte deles de baixo nível, sem temas de interesse -- comédias românticas parvas, boas para criancinhas de doze anos, histórias de serial-killers, sempre repetitivas, e até mais uma incursão à guerra civil americana! --, devo ter escolhido a pior.
Uma boa história como ponto de partida, e que se perde a partir da altura em que é disparado o primeiro tiro. A partir daí esquece-se a ficção científica e assistimos a mais uma cóboiada ao pior estilo norte-americano. Nem falta uma grande cena de perseguição, onde o pobre do Woo, à falta de mais ideias, deve ter gasto todo o seu orçamento. No meio disto, um Ben Affleck reduzido ao mínimo -- ele também não é capaz de muito mais... -- e, que desperdício, uma Uma Thurman num papel extremamente pobre de uma bióloga que se apaixona pelo Ben e chora muito ao saber que ele apagou da memória os três anos que esteve com ela. No final, claro, ficam juntos, e até ganham a lotaria... (!)
Não vão ver. Mas eu não vou esquecer: é mais uma confirmação de que o cinema norte-americano está de rastos. Pelo menos o que chega às nossas salas. Em trinta, aproveita-se um. E, aqui, apetece-me perguntar, com alguma indignação: se é mau, porque razão no-lo dão? Porque razão ainda o consumimos?

Falhei, lamentavelmente, o chamado Dia Z, para assinalar a passagem de mais um ano desde a morte de Zeca Afonso. Mas o Zeca pode ser lembrado todos os dias, porque se trata de um dos meus heróis de sempre, um cantor e poeta que se tornou numa das minhas referências insubstituiveis para o modo de estar e agir. Não o conheci pessoalmente, nem sequer cheguei a assistir a um concerto dele ao vivo. Vi, emocionado, o célebre concerto no Coliseu dos Recreios. Ouço esse disco sempre com emoção. Guardo religiosamente todos os discos que ele gravou e todas as suas poesias. Toco na viola, e tento cantar, aí umas vinte canções celebrizadas pelo Zeca. Lamento, constantemente, que seja tão ignorado neste país onde as pessoas se deixam cada vez mais dominar pela futilidade e esquecem o essencial. O Zeca tentou alertar as pessoas para a importância do pensamento. A nós, em sua honra, resta-nos fazer o mesmo. A blogosfera, na minha opinião, serve para isso.

A "Uncut" é uma respeitável revista sobre rock, pop, folk e cinema. A melhor. Encontra-se por aí, em lojas mais especializadas, e traz nas suas capas sempre artistas que agora os nossos jovens apelidam de "cotas", como Jim Morrison, Keith Richards, David Bowie ou Pink Floyd. É, pois, uma revista com memória, essa coisa preciosa.
No número de Fevereiro, pode ler-se uma extraordinária entrevista com Rickie Lee Jones, uma senhora (também ela já "cota"...) do rock e dos blues norte-americanos. Diz ela, em palavras claras, que odeia George W. Bush, que se arrepia com o mal que ele é capaz de fazer em nome do bem, que nos Estados Unidos actualmente é difícil discutir o que quer que seja, pois as pessoas têm medo, e que já sabe que as suas palavras lhe vão custar ser "excomungada", por exemplo por um canal de televisão tão importante como a Fox News.
Estas palavras merecem reflexão. Deviam ser notícia nos nossos jornais e televisões. Devíamos perguntar-nos porque razão uma artista consagrada como Rickie Lee Jones diz isto de um país que, na generalidade do mundo ocidental, é considerado um exemplo de desenvolvimento, democracia e liberdade. Ou será que estamos todos enganados?
Aqui ao lado, na nossa vizinha Espanha, o governo do Partido Popular deu mais um sinal do seu reaccionarismo e falta de respeito pelos princípios da democracia, ao preparar uma lei que torna a Religião uma disciplina obrigatória na formação escolar, e indispensável mesmo para a passagem de ano. Um regresso ao passado, pois, quando se acreditava que já todos tínhamos ultrapassado esta fase.
A reportagem pode ser lida no último número da revista do "Expresso", e aí são citados alguns dos princípios com que se pretende lavar a cabeça às crianças espanholas. Coisas do género "o corpo humano é obra de Deus, criado com a colaboração dos pais". É notável, não é? Sobretudo vindo de um governo que foi dos poucos a apoiar os Estados Unidos no ataque ao Iraque, em nome de, entre outras aldrabices, liberdade religiosa, democracia, princípios humanistas.
Resta-nos esperar, primeiro, que o Partido Popular não ganhe as próximas eleições em Espanha. E que, depois, a doença não se estenda a Portugal, tal a proximidade e dependência que o nosso governo (?) parece ter em relação a Aznar e ao seu grupinho.
O meu filho há-de ter o direito de escolher.
Há um projecto para Educação Sexual nas escolas. Dizem. Os nossos governantes gostam de aparecer e de se juntar aos temas mais actuais, àqueles que atraem mais a opinião pública. É uma forma de dizerem que estão atentos. Mas nunca vão às verdadeiras necessidades.
Sem ter nada contra a educação sexual nas escolas, permito-me desconfiar deste projecto. Ele faz todo o sentido se fôr integrado num mais amplo projecto de educação que pretenda fazer dos nossos filhos pessoas completas, íntegras, capazes de se relacionar civilizadamente uns com os outros. Um projecto que lhes ensine não só a sexualidade mas também lhes ensine a alimentação, a saúde, a arte, a ética de viver em sociedade. Tudo o que as nossas escolas actualmente não têm. Se fôr só uma questão de uso ou não do preservativo, então isto não passa de mais uma campanha pedagógica dos nossos políticos, cada vez mais representativos da chico-espertice nacional.
Em tempos que já lá vão, o rei Sampaio I deslocou-se, e mais a sua corte, até ao longínquo reino da Noruega, que era banhado pelo Oceano Pacífico. Sim, era ao som das músicas escolhidas pelo João Chaves que o princeso noruguês recebia as comitivas de países distantes. De Portugal, um reino banhado pelo Mediterrâneo, o princeso nunca ouvira falar, mas pediu aos seus conselheiros que lhe trouxessem um dossier o mais completo possível, para que não dissesse qualquer asneira.
Assim, o princeso norueguês pôde conhecer as extraordinárias obras que o reino de Sampaio I estava a fazer para poder receber o Mundial de futebol: vários hospitais em todos os distritos, muitos jardins para alindar as cidades, e grandes promoções culturais. Em dossiers tão completos vinham também os relatos do amor revelado por pessoas importantes da vida portuguesa pelas criancinhas pobres e orfãs ao cuidado de uma instituição de solidariedade social. Num relato completíssimo sobre o humanismo do reino de Sampaio, nem faltou uma banda desenhada sobre a semana inteira em que toda a gente chorou a morte de um desportista em directo pela televisão -- e gostaram tanto que exigiram que o sucedido fosse repetido vezes sem conta pelos canais televisivos --, terminando essa banda desenhada com uma aliciante apresentação dos próximos episódios, a prometer grande acção e emoção, directamente dos túneis dos estádios que irão receber o Mundial de futebol. O princeso norueguês gostou tanto disto que já encomendou vários exemplares do próximo número da BD.
E Sampaio I, sempre sorridente, e depois de um discurso que deixou perplexos (ninguém sabe porquê...) todos os presentes, convidou o princeso para umas férias à beira do Mediterrâneo.