janeiro 18, 2004

O SILÊNCIO DE JOHN CAGE

John Cage é um génio, mas anda a gozar com os pseudo-intelectuais que proliferam no mundo da cultura. Como é possível dizer que estamos perante um obra musical histórica, como já ouvi referir a propósito daqueles quatro minutos de silêncio que Cage compôs (?)? Como é possível não desatar às gargalhadas imaginando uma pomposa sala de concertos, os seus emproados espectadores e uma orquesta preparada para executar (?) quatro minutos de silêncio?

Ponto prévio: gosto muito de John Cage. Tenho uma obra dele com a qual me delicio ocasionalmente. O silêncio já aí é uma característica de Cage. Ele sabe jogar com ele. Como ninguém, combina o silêncio com a música. Porque só existe obra musical se as duas coisas se entrelaçarem. Aí, sim, há génio. E Cage é, indubitavelmente, um génio dos nossos tempos.

Mas os génios têm destas coisas. Como João César Monteiro na sua "Branca de Neve", e alguns pintores modernos que dum risco simples numa tela em branco fazem (antes, desfazem) uma obra de arte.

A arte contemporânea desafia os limites, e às vezes ultrapassa-os, deixando então de ser arte. Porque arte é criação. E criar é levantar alguma coisa do nada, sendo esse nada o silêncio, uma tela vazia ou uma folha em branco. Se o José Saramago, um génio da literatura, apresentasse (sim, não posso dizer "escrevesse"...) um livro com as folhas em branco, estaríamos perante um marco na história da literatura? Claro que não; estaríamos, talvez, num momento de alguma senilidade do artista.

Por isso, não venham falar de uma obra histórica de John Cage. Essas, ele já fez. Esta de agora, este silêncio, significa que ou ele está a gozar com todos nós, ou então endoideceu.

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janeiro 13, 2004

Românticos em 2004

Os nossos políticos, especialmente aqueles que estão no poder, tentam constantemente enganar-nos. Agora vêm dizer para a televisão (ou seja, dentro das casas de todos nós) que o ano de 2004 vai ser melhor e o que de 2005, esse então, nem se fala, o país vai ficar rico e todos nós teremos uma vida melhor. Quem quiser acreditar pode esquecer os despedimentos colectivos, as falências nas empresas, os ataques à liberdade de imprensa, as restrições na saúde e as injustiças na educação.

Quem quiser, pode ser romântico e olhar a sua sombra recortada no pôr do sol, como foi tentado o homem desta história...

Sempre fui um romântico. Mesmo lamechas, às vezes. Nada como um pôr do sol.  Encostado à umbreira da porta, olhava as nuvens em chama,  imaginando a minha própria sombra recortada,  tipo postal turístico.
Uma  vez,  porém,  arrependi-me.  Sem  que eu tivesse  feito qualquer  esforço para isso,  tu apareceste no meio  das  chamas, piscaste-me o olho,  sorriste e a seguir sopraste.  Do pôr do sol veio  uma ventania enorme,  coisa sobrenatural,  e a minha sombra recortada,  tão bonita e clássica,  ficou desfeita.  Desde então, mais cauteloso, olho o pôr do sol do lado de cá da janela.

Publicado por Joaquim Semeano em 01:03 AM | Comentários (1) | TrackBack

janeiro 12, 2004

O RESPEITO PELAS INSTITUIÇÕES E O REFERENDO SOBRE O ABORTO

Tenho estado a acompanhar, embora de uma forma pouco concentrada, um debate na televisão em que se falou na falta de respeito dos portugueses pelas instituições. A acusação, proferida por Pacheco Pereira, é uma maneira fácil de ludibriar os verdadeiros problemas do país e, no fundo, da nossa civilização ocidental: as instituições não se dão ao respeito, a começar pelo poder político, que mais deveria preservar essas instituições. Assim, como pedir aos portugueses que as respeitem? O respeito, como resposta à falsidade, incompetência, mentira, desonestidade? Não. O desrespeito, pois claro.

Por outro lado, as instituições pouco assumem o seu verdadeiro papel, a começar, repito, pelo poder político. Então não é que está em marcha uma bem intencionada campanha de angariação de assinaturas para pedir um novo referendo sobre o aborto? Então não se percebeu já que se o aborto voltar a um referendo voltará a ser proibida a sua liberalização, como aconteceu no primeiro referendo? Porque estamos num país conservador e culturalmente atrasado, que nos últimos anos apenas regrediu em termos civilizacionais.

Pelos vistos, o poder político não tem coragem para tomar a única decisão certa sobre o aborto: a liberalização. E mais uma vez prepara-se para descarregar esse ónus no famigerado referendo. O objectivo, claro, deve ser que tudo fique na mesma. Então que respeito é possível ter pelas instituições?

Publicado por Joaquim Semeano em 01:06 AM | Comentários (1) | TrackBack

janeiro 10, 2004

O PEIXINHO VERMELHO

A história do peixinho vermelho, que escrevi há muitos anos, quando começava já a entender a ironia do mundo que me rodeava, tem muito a ver com a nossa civilização ocidental. Tem a ver com a forma como olhamos os povos que são diferentes de nós, e fala de como gostávamos de os encerrar num aquário para observarmos distraidamente como vivem. Mais que isso, não.

Reencontrei a história hà poucos dias, nuns papéis antigos, e achei que ficava bem neste Bosque.

O  peixinho  vermelho  olhou as pessoas à sua  volta  e  não entendeu. Passavam  por ele com olhares estranhos e  misteriosos que ele não conseguia compreender.
O peixinho vermelho ainda esteve para lhes perguntar:
-- O que querem de mim?
Mas,  depois, contêve-se, e nada lhes perguntou. Continuou a nadar calma e serenamente.
A determinada altura escondeu-se atrás de umas plantas a ver se os surpreendia nas suas conversas. No  entanto,  aquela  gente tinha uma linguagem  estranha e cantava   de  um  modo  muito  diferente  daquela  a  que  estava habituado.
Minutos depois, o peixinho estava nervoso.
-- Eles nunca mais deixam de passar por aqui e de olhar para mim!  -- gritou,  e  a água encheu-se de bolhas e as pessoas  que viam mais e mais se entusiasmaram.
Nesta  altura,  o  peixinho vermelho já estava  zangado  com todos eles e, à medida que os minutos iam passando,  mais e mais os odiava.
-- Que estúpidos são!  -- disse, e a àgua voltou a encher-se de bolhas.
Uma  das  pessoas  deu um grande grito e  desta  vez  disse, nítidamente  numa  língua  incrivelmente  compreensível  para   o peixinho:
-- Ai, que bonito que ele é!
O  peixinho vermelho surpreendeu-se,  e pensou que estavam a gozar com ele. Minutos depois, o peixinho vermelho morreu.

Publicado por Joaquim Semeano em 12:41 AM | Comentários (0) | TrackBack

janeiro 07, 2004

O GATO E A GALINHA (uma fábula moderna)

Enquanto lá fora se discutem coisas tão importantes como a irritação do nosso reisinho porque os jornalistas dão notícias, opto por fechar a porta do Bosque e encontrar a salvação no velho non-sense.

Eis uma fábula moderna, para que pensemos no passado, no presente, e na lição que é sempre o confronto entre o forte e o fraco. Ups! Alguém percebeu alguma coisa?

Quando tudo recomeçou,  o vento passou por mim como se fosse uma pessoa apressada.  Corri atrás dele e segurei-o à entrada  do bar. Ele olhou-me, semicerrando os olhos como um velho cow-boy.
-- O que queres? -- perguntou, e a voz que lhe veio do peito era  dura como metal.  Mas havia qualquer coisa de terno nos seus olhos azuis.
-- Vamos entrar. Paga-me um copo.
Esta mensagem pareceu ter sido do agrado do velho. Sorriu e, pondo-me a mão no braço direito, puxou-me para dentro.
Sentámo-nos a um canto do bar,  eu e o vento.  A sala estava envolvida numa semi-obscuridade, transmitida pela luz que entrava timidamente  pela única janela aberta.  Reinava ali  um  silêncio sepulcral, quase assustador. Um velho coxo, apoiado numa bengala, veio perguntar-nos o que queríamos,  e o meu companheiro teve uma resposta maravilhosa:
-- Uma garrafa de passado, por favor.
-- Concerteza. -- respondeu o outro, sem qualquer hesitação.
Lá  dentro,  alguém  deixou caír um prato,  e ouviram-se  os estilhaços.  E, no minuto seguinte, entrou um rapaz, dos seus dez anos, correndo esbaforido atrás de uma galinha.
-- Anda cá, maldita! Não me foges mais! Ah, ah!
Havia  na  sua  expressão uma certa  e  invulgar  crueldade. Agarrou  o animal por uma asa e,  indiferente aos seus gritos  de dor, arrastou-o para a rua e desapareceu.
O  meu companheiro,  o velho vento,  olhava tudo com  um  ar misterioso,  como  quem pensa em algo mais,  muito para lá  da realidade.   Nos  seus  ouvidos,  tocava  certamente  uma  música estranha.
Olhando-o, relativamente encantado, deixei-me fascinar, desejando  ouvir  a  mesma música,  passear um pouco  nas  mesmas paisagens em que corriam os seus olhos.
Quando o homem coxo e apoiado na bengala trouxe a garrafa de passado,  o vento despertou de novo. 
Foi com gestos delicados e impressionantemente  silenciosos  que  pegou nela e  encheu  dois copos.
-- Bebe com cuidado. -- disse-me.
Eu sorri:
-- Estou habituado. Não há problema.
Um  gato que dormia em cima do balcão acordou de  repente  e saltou  para  cima da nossa mesa.  O vento afagou o animal  muito peludo e novamente pareceu submergido em estranhos pensamentos.
-- Para onde vais agora?  -- perguntou-me,  ao fim de  cinco minutos em silêncio.
-- Quando sair por aquela porta,  vou voltar à minha aldeia. -- respondi-lhe,  e  fiquei surpreendido com a certeza do meu tom de voz. Aquela era uma decisão que eu ainda não tinha tomado.
-- E  sabes  o  caminho?   -- perguntou-me  ele   novamente, olhando-me  fixamente,  como  o professor que interroga  o  aluno cheio de incertezas.
-- Sei. É por aquela porta...
Na  verdade,  eu não sabia.  De modo nenhum.  À volta do bar corria uma infinidade de caminhos,  e ao longe muitas  montanhas, todas elas iguais. Na verdade, eu estava relativamente perdido.
Então  o  vento mostrou-me o gato que se rebolava  entre  as suas mãoos com indiscutível prazer.
-- Ele vai fugir. Segue-o, não o percas nunca.
Ao ouvir aquelas palavras, ri às gargalhadas.
-- Um gato?  Porque vou eu correr atrás de um gato? Não. Vou ficar  por aqui.  Hoje de manhã recebi uma carta.  Dela.  Só  ela conhece o caminho.
-- Dela? E que diz?
-- Para  esperar  no  bar.   Se  fôr  preciso,   espera  uma eternidade -- estas foram as suas últimas palavras. Nunca mais as esqueci. E este é um bom lugar para esperar até à eternidade. Uma conversa  com  o  vento,  uma garrafa de passado,  um  gato  para acariciar.
-- E o mundo à tua volta?  Não te diz nada? Porque te portas assim?  Tu não és um vento qualquer. És um homem. Um homem real, nascido de uma mulher,  não de uma fantasia qualquer. Há coisas a fazer.
E a perseguir. Um gato, por exemplo.
-- Depois. Depois de ela vir.
-- Até à eternidade?
-- Até à eternidade.
Ele calou-se, mas o silêncio não durou muitos mais segundos. Do  lado  de  lá  do  balcão,  o velho  coxo  desatou  a  rir às gargalhadas. Ria com um gosto tremendo, com o rosto cada vez mais vermelho  e  o  corpo  magro tremendo-lhe  como  se  atacado  por convulsões  mortais.  Quando ele parou,  o  vento  perguntou-lhe, também com um rosto sorridente:
-- Tu sabes do que eu falo,  não é verdade?  Há quanto tempo esperas, velho?
-- Há uma eternidade!
E depois foi de novo atacado pelo riso,  de tal modo que com os  braços fez cair dois copos e uma garrafa que estavam em  cima do  balcão.  Novamente os estilhaços encheram o silêncio  daquele entardecer,  e  a eles só sucedeu um grito revoltado do gato  nas mãos do vento. O velho largou-o e o animal escapou-se pela porta, sempre a miar de um modo angustiado.
Ao ver aquilo,  continuei parado, disposto a estar ali até à eternidade.   Mas,  logo  depois, ouvimos  claramente  um  grito horrível  na  rua,  como se uma  mulher  sofresse  horrivelmente.
Precipitámo-nos  para  a  porta  e vimos a galinha  de  há  pouco agonizar na boca da fera, perante o desespero do rapaz que ao bar a fôra buscar. Incapaz de qualquer acção, a pobre criança olhava, de mãos na cabeça, o horrível estraçalhar.
Tive  pena e aproximei-me.  O rapaz estava a  chorar,  e  eu segurei-lhe nos braços e levantei-o, dizendo-lhe:
-- Vem. Vou levar-te a casa. Onde moras?
Ele  apontou para longe,  para lá das montanhas.  Olhei para trás  e  já não vi o velho vento. 
Certamente sorria para  o  seu interior,  sentado à mesa do bar. Anoitecia, mas estava agradável e pus-me ao caminho com o rapaz, que continuava a chorar.
-- É por aqui? -- perguntei-lhe.
Acenou que sim.  Tinha um rosto engraçado,  marcado por  uns olhos escuros pequenos e muito irrequietos.
Caminhou no maior dos silêncios, e só ao fim de dez minutos, quando já penetráramos nas montanhas e o escuro da noite nos envolvia, é que se dignou olhar para mim e sorrir de um modo simpático.
-- Chamo-me Dip. E tu? -- perguntou.
-- Chuv.
-- É um nome engraçado.  É como o meu! Sabes como se chama a minha avó?
-- Não...
-- Aleg!
-- Aleg? Aleg?
-- É bonito, não é? Já conheceste alguém com um nome assim?
-- Não, e é muito estranho. E a tua mãe, como se chama?
-- Não  tenho mãe,  nem pai.  Partiram para longe,  há muito tempo.  Sei  que  vão voltar,  um dia.  A minha avó  diz-me  para esperar por eles, nem que seja até à eternidade.

Publicado por Joaquim Semeano em 02:17 AM | Comentários (0) | TrackBack

janeiro 03, 2004

O Luis Graça foi ao Cabaret

Sou espectador assíduo do "Cabaret da Coxa". Sic Radical, ás tantas da noite, à hora a que normalmente estou mais disponível para ver televisão. Mas esta semana apanhei uma desilusão. Então não é que o nosso Rui Unas gasta um programa inteiro a tentar arrancar qualquer palavra de jeito da Marisa Cruz, deixando a assistir um indefectível representante da mais rebelde e saudável atitude cultural deste paíszinho, como é o nosso querido Luis Graça?

Bem, não tenho a certeza de ter assistido ao programa todo, mas fiquei com a sensação de que sim: o Rui Unas leu um poema do Luis, apresentou-o e este entrou, sentou-se, a seguir veio a Marisa Cruz, e de imediato o Unas começou a desfazer-se ante aqueles olhinhos bonitos... e pronto, o "Cabaret da Coxa" ficou uma seca! Era um espaço saudável na nossa chata televisão, mas parece que já foi contaminado. Então o Luis Graça não tinha muito mais histórias para contar do que a pobre da Marisa?

Publicado por Joaquim Semeano em 08:49 PM | Comentários (0) | TrackBack