O regresso de Fausto é o grande acontecimento cultural de 2003. As cidades culturais, ou grandes festivais internacionais, de nada significam face ao renascer deste cantor, e poeta, que ocupa um lugar ímpar na cultura portuguesa. "A Ópera Mágica do Cantor Maldito", assinada por Fausto Bordalo Dias, vai ficar na história da música portuguesa. Defesa intransigente do melhor da música portuguesa e reflexão oportuna sobre o país que hoje somos, é obviamente uma obra incómoda e por isso é ignorada pelas nossas estações de televisão, pelas rádios e pela maior parte dos jornais. É triste, mas é assim.
Veja-se só este pedaço de prosa:
"Um tilintar
de lápis-azuis
serventes do prestamista
na diatribe
já reúne outros servis
que rezam p'la pele do artista
risca
corta
e proíbe-o nos painéis
a azul-brigada-dos-coronéis
era uma vez a brigada-dos-coronéis"
Bravo, Fausto!

Como é costume, o mundo ocidental civilizado desvia todas as suas energias para as comprinhas de Natal. Hoje em dia, no nosso mundo, Natal quer dizer consumo. E, embora as chaminés estejam cada vez mais estreitinhas, o velho de barbas brancas não desiste e lá vai empurrando, empurrando... qualquer dia a chaminé vem abaixo.
"O Senhor dos Anéis" é uma obra imortal, e muito mais que um fenomenal espectáculo cinematográfico. Costuma dizer-se que as pessoas devem ser divididas em dois grupos: as que leram o livro, e as que o não leram. É presunção, naturalmente, por parte de quem já leu.
Mas há uma lógica subjacente a esta presunção: o entendimento global da obra de Tolkien, só possível no livro, apesar de toda a espectacularidade do filme.
E deste entendimento deve destacar-se o profundo humanismo do escritor, que no fundo marca toda a saga do anel. É por princípios humanistas que os hobbits arriscam a vida. É pela preservação da espécie humana no seu modo mais digno, o da justiça, da liberdade, do respeito pela integridade de cada um. Não é apenas mais um filme fantástico contra os monstros do mal. É uma obra literária com uma forte e vincada concepção do Bem.
Veja-se, pois, "O Senhor dos Anéis", e sobretudo leia-se o livro, extenso, mas verdadeiramente feiticeiro.
E depois aplique-se a visão de Tolkien à sociedade contemporânea. Pense-se, por exemplo, no tempo actual, em que a parte do mundo que se reclama defensora do Bem procura a forma de executar um representante do Mal. E pense-se se os personagens Bush e Saddam se aplicam a estas definições. Claro que não. Pense-se então em que estamos errados. Pense-se.
"Apanhámo-lo!", gritou o americano, emproado, para ser aplaudido de seguida pelos jornalistas (?). Depois, as imagens televisivas mostraram-nos um velhote de cabelos desgrenhados, os olhos encovados e sem brilho, uma barba longa, esbranquiçada, como a do Pai Natal. Seria ele? Os americanos teriam apanhado o Pai Natal?
A época é propícia a festejos destes, mas ao que parece não era o Pai Natal. Era, dizem os americanos, um tal de Saddam Hussein, personagem inquietante dos filmes de guerra da nação mais evoluída do mundo. Nesses filmes, contam -- que eu vejo pouco estes filmes musculados, cheios de tiros e explosões, mas que não têm argumentos e são completamente desprovidos de princípios humanistas -, o Saddam é uma espécie de inimigo público nº 1.
Pergunto-me porquê: como é que um vagabundo daqueles (nas imagens televisivas até estavam a ver se ele tinha piolhos, ou dentes podres...), pode ser uma ameaça para a nação mais desenvolvida do mundo? Confirmo: estes filmes americanos são completamente desprovidos de imaginação e humanismo.
Neste país apetece apelar ao non-sense. Estamos cada vez mais lá. Ora tomem!
Chez João saíu naquela noite à rua com uma ideia esquisita na cabeça. Era esquisita, e não sabia defini-la. Não saberia dizer o que era se lhe perguntassem.
Chez João caminhou com os auscultadores nos ouvidos e a música dos Clash no limite do som. Olhou as pessoas à volta e pareceu-lhe que todas tinham um ar estúpido.
Todas... não. A um canto viu um rapaz que tinha o mesmo ar indefinido da ideia que lhe ia pela cabeça.
O rapaz sorriu-lhe. Nos dentes, tinha desenhados pequenos pássaros de todas as cores e feitios. Então lembrou-se.
-- Olha! -- gritou-lhe -- Eu não tenho pássaros, só berlindes...
E sorriu-lhe.
Vivemos num país onde o Estado deixou de existir. Eles estão lá, os homens de Estado, mas é só um emprego. Emprego à parte, eles perfilham a todo o momento uma política de privatização, vendendo toda e qualquer capacidade de intervenção na vida do país.
Tem sido assim ao longo dos tempos. Talvez por isso este seja o país que espera eternamente pelo idiota do D. Sebastião. Espera-se que do nevoeiro venha uma salvação, mas do nevoeiro o que vem é sempre um mistério.
Estas amargas reflexões inspiraram-me, em tempos, a seguinte história...
Surgido das brumas, dos nevoeiros, da confusão que emergia por trás dos montes, apareceu um homem bem vestido, que eu nunca vira. Caminhava de um modo majestoso, como se fosse um rei. Olhava como se estivesse no ponto mais alto do mundo e toda a sabedoria estivesse sob o seu controlo.
As pessoas que o viram, entre as quais este pobre escriba, sentiram-se arredadas perante tal grandiosidade, e toda a gente abriu alas para que ele passasse à vontade, aquele sorriso soberano para a esquerda e para a direita, aqueles olhos perspicazes que viam mais que todos nós.
E pronto. Ele passou, tomou conta do seu espaço, e nós estivemos quase a fazer uma festa. Mas não. Rapidamente nos convencemos de que dava muito trabalho. Ele, do fundo da sua sabedoria, encarregar-se-ia de tal.
A seguir, pensámos que o melhor era mesmo voltar ao trabalho, que o tempo urge e não perdoa. Mas também nos convencemos de que era cansativo. Ele, com o seu olhar poderoso e magnânime, haveria de arranjar uma solução.
Satisfeitos, mais felizes que nunca, andámos devagar, cada um para seu lado, um pouco ao acaso, mas ao acaso de uma felicidade indiscutível. A única coisa que, tínhamos a certeza, passaria ao lado daquele conquistador que para nos salvar tinha emergido do nevoeiro.
Mas um dia o nevoeiro desapareceu. Fugiu, como se fosse uma gazela, escondendo-se numa gruta algures no meio das grandes montanhas. Os homens ficaram preocupados, pois nunca tal tinha acontecido. Durante algum tempo ficaram a mirar o local para onde ele tinhá seguido. Pensaram em cercar a gruta, obrigá-lo a saír de lá com uma enxurrada de água.
Mas não se faz isso ao nevoeiro. O bom-senso falou mais alto, e os homens daquele sítio começaram a habituar-se a viver de uma maneira diferente, olhando na poeira dos campos algo parecido com o saudoso nevoeiro. Nessas alturas os seus olhos enchiam-se de lágrimas, era a saudade que apertava.
Depois, tinham que limpar bem os olhos, ou passavam a ver muito pior do que antes. Era o homem a transformar-se, mas não podia transformar-se assim tanto. Por isso, um dia reuniram-se e tomaram uma decisão para que passassem a viver melhor: todas as semanas, um voluntário partia à procura do nevoeiro. O que primeiro voltasse com ele, emergido nele, era o salvador.
Os candidatos passaram a ser muitos, mas em breve aquele sítio ficou sem homens, e do salvador nem sinais.
Ficou um sítio deserto, só com a poeira dos campos, e ninguém para chorar com saudades.
Quando chega este período do ano, as pessoas da cidade começam a preparar-se para o regresso, por alguns dias, à terra natal. Passar a quadra com os velhos pais, os velhos amigos, reencontrar as coisas antigas. Lá chegamos com as nossas prendas da civilização. Mas raramente meditamos a fundo sobre o que nos leva lá. É por isso que um destes dias resgatei uma historinha antiga do fundo das minhas gavetas...
Num dos dias em que me assaltou a nostalgia do passado, pensei em ir até à velha vila, onde tudo se passara. Não era longe, e se pegasse no carro estaria lá em pouco mais de meia hora. Relembrava o caminho, acidentado, com muitas curvas e àrvores altas mesmo à beira da estrada. Perigoso.
Naqueles troncos escuros e assustadores durante muitos minutos se haviam perdido os meus olhos, enquanto o espírito vagueava, apaixonado, pela velha vila onde tudo ficara. Tudo ou quase tudo. Um resto de mim sobrevivia a esse passado fascinante, a esses episódios inesquecíveis que tinham moldado com precisão este coração romântico e sonhador. Recordei as escadas, longas, terrivelmente longas, como se só parassem no céu. Lá no cimo estava tudo, ou quase tudo o que eu não queria deixar. No cimo estava a felicidade, a concretização dos sonhos, das mais mirabolantes imaginações.
Ao lado da escadaria, entre os arbustos verdes escuros, morava o castelo, velho e encantador. Ali havia uma outra escadaria para o passado, uma dimensão diferente onde eu também me chegara a perder. E em baixo, lá muito em baixo, a vila, as suas ruas estreitas, complicadas, quase labirínticas. A vila onde ficara um pouco de mim.
Pensei então que o melhor era não ir. Não podia lá deixar mais um pouco de mim. Não voltaria sem resgatar o que lá perdera. E este era um resgate quase impossível, e eu não sabia mesmo se queria resgatar esse bocado de mim. Fiquei onde estava.