dezembro 31, 2003

O regresso de Fausto

O regresso de Fausto é o grande acontecimento cultural de 2003. As cidades culturais, ou grandes festivais internacionais, de nada significam face ao renascer deste cantor, e poeta, que ocupa um lugar ímpar na cultura portuguesa. "A Ópera Mágica do Cantor Maldito", assinada por Fausto Bordalo Dias, vai ficar na história da música portuguesa. Defesa intransigente do melhor da música portuguesa e reflexão oportuna sobre o país que hoje somos, é obviamente uma obra incómoda e por isso é ignorada pelas nossas estações de televisão, pelas rádios e pela maior parte dos jornais. É triste, mas é assim.

Veja-se só este pedaço de prosa:
"Um tilintar
de lápis-azuis
serventes do prestamista
na diatribe
já reúne outros servis
que rezam p'la pele do artista
risca
corta
e proíbe-o nos painéis
a azul-brigada-dos-coronéis
era uma vez a brigada-dos-coronéis"

Bravo, Fausto!

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dezembro 24, 2003

O Velho e a Chaminé

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Como é costume, o mundo ocidental civilizado desvia todas as suas energias para as comprinhas de Natal. Hoje em dia, no nosso mundo, Natal quer dizer consumo. E, embora as chaminés estejam cada vez mais estreitinhas, o velho de barbas brancas não desiste e lá vai empurrando, empurrando... qualquer dia a chaminé vem abaixo.

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dezembro 19, 2003

O nosso mundo e o Senhor dos Anéis

"O Senhor dos Anéis" é uma obra imortal, e muito mais que um fenomenal espectáculo cinematográfico. Costuma dizer-se que as pessoas devem ser divididas em dois grupos: as que leram o livro, e as que o não leram. É presunção, naturalmente, por parte de quem já leu.

Mas há uma lógica subjacente a esta presunção: o entendimento global da obra de Tolkien, só possível no livro, apesar de toda a espectacularidade do filme.

E deste entendimento deve destacar-se o profundo humanismo do escritor, que no fundo marca toda a saga do anel. É por princípios humanistas que os hobbits arriscam a vida. É pela preservação da espécie humana no seu modo mais digno, o da justiça, da liberdade, do respeito pela integridade de cada um. Não é apenas mais um filme fantástico contra os monstros do mal. É uma obra literária com uma forte e vincada concepção do Bem.

Veja-se, pois, "O Senhor dos Anéis", e sobretudo leia-se o livro, extenso, mas verdadeiramente feiticeiro.

E depois aplique-se a visão de Tolkien à sociedade contemporânea. Pense-se, por exemplo, no tempo actual, em que a parte do mundo que se reclama defensora do Bem procura a forma de executar um representante do Mal. E pense-se se os personagens Bush e Saddam se aplicam a estas definições. Claro que não. Pense-se então em que estamos errados. Pense-se.

Publicado por Joaquim Semeano em 04:02 PM | Comentários (3) | TrackBack

dezembro 14, 2003

Os americanos e o vagabundo

"Apanhámo-lo!", gritou o americano, emproado, para ser aplaudido de seguida pelos jornalistas (?). Depois, as imagens televisivas mostraram-nos um velhote de cabelos desgrenhados, os olhos encovados e sem brilho, uma barba longa, esbranquiçada, como a do Pai Natal. Seria ele? Os americanos teriam apanhado o Pai Natal?

A época é propícia a festejos destes, mas ao que parece não era o Pai Natal. Era, dizem os americanos, um tal de Saddam Hussein, personagem inquietante dos filmes de guerra da nação mais evoluída do mundo. Nesses filmes, contam -- que eu vejo pouco estes filmes musculados, cheios de tiros e explosões, mas que não têm argumentos e são completamente desprovidos de princípios humanistas -, o Saddam é uma espécie de inimigo público nº 1.

Pergunto-me porquê: como é que um vagabundo daqueles (nas imagens televisivas até estavam a ver se ele tinha piolhos, ou dentes podres...), pode ser uma ameaça para a nação mais desenvolvida do mundo? Confirmo: estes filmes americanos são completamente desprovidos de imaginação e humanismo.

Publicado por Joaquim Semeano em 11:21 PM | Comentários (2) | TrackBack

dezembro 12, 2003

O rapaz com pássaros

Neste país apetece apelar ao non-sense. Estamos cada vez mais lá. Ora tomem!

Chez João saíu naquela noite à rua com uma ideia esquisita na cabeça.  Era esquisita,  e não sabia defini-la. Não saberia dizer o que era se lhe perguntassem.
Chez  João  caminhou  com os auscultadores nos  ouvidos  e  a música  dos Clash no limite do som.  Olhou as pessoas à  volta  e pareceu-lhe que todas tinham um ar estúpido.
Todas...  não.  A um canto viu um rapaz que tinha o mesmo ar indefinido da ideia que lhe ia pela cabeça.
O  rapaz sorriu-lhe.  Nos dentes,  tinha desenhados pequenos pássaros de todas as cores e feitios. Então lembrou-se.
-- Olha!   -- gritou-lhe  -- Eu  não  tenho   pássaros,   só berlindes...
E sorriu-lhe.

Publicado por Joaquim Semeano em 03:26 PM | Comentários (3) | TrackBack

dezembro 11, 2003

O Estado sem Dom Sebastião

Vivemos num país onde o Estado deixou de existir. Eles estão lá, os homens de Estado, mas é só um emprego. Emprego à parte, eles perfilham a todo o momento uma política de privatização, vendendo toda e qualquer capacidade de intervenção na vida do país.

Tem sido assim ao longo dos tempos. Talvez por isso este seja o país que espera eternamente pelo idiota do D. Sebastião. Espera-se que do nevoeiro venha uma salvação, mas do nevoeiro o que vem é sempre um mistério.

Estas amargas reflexões inspiraram-me, em tempos, a seguinte história...

Surgido das brumas,  dos nevoeiros,  da confusão que emergia por trás dos montes,  apareceu um homem bem vestido,  que eu nunca vira.  Caminhava de um modo majestoso,  como se fosse um rei.  Olhava como se estivesse no ponto mais alto do mundo e toda a sabedoria estivesse sob o seu controlo.
As  pessoas que o viram,  entre as quais este pobre escriba, sentiram-se arredadas perante tal grandiosidade, e toda a  gente abriu  alas  para  que ele passasse  à  vontade,  aquele  sorriso soberano  para  a  esquerda e  para  a  direita,  aqueles  olhos perspicazes que viam mais que todos nós.
E  pronto.  Ele  passou,  tomou conta do seu espaço,  e  nós estivemos  quase  a fazer uma festa.  Mas  não.  Rapidamente  nos convencemos  de que dava muito trabalho.  Ele,  do fundo  da  sua sabedoria, encarregar-se-ia de tal.
A  seguir,  pensámos  que  o  melhor  era  mesmo  voltar  ao trabalho, que  o  tempo  urge  e  não  perdoa.  Mas  também  nos convencemos de que era cansativo. Ele, com o seu olhar poderoso e magnânime, haveria de arranjar uma solução.
Satisfeitos,  mais felizes que nunca,  andámos devagar, cada um  para  seu  lado,  um  pouco ao acaso,  mas ao  acaso  de  uma felicidade indiscutível.  A única coisa que,  tínhamos a certeza, passaria  ao lado daquele conquistador que para nos salvar  tinha emergido do nevoeiro.
Mas um dia o nevoeiro desapareceu.  Fugiu, como se fosse uma gazela,  escondendo-se  numa  gruta algures no meio  das  grandes montanhas.  Os  homens ficaram preocupados,  pois nunca tal tinha acontecido. Durante algum tempo ficaram a mirar o local para onde ele tinhá seguido.  Pensaram em cercar a gruta,  obrigá-lo a saír de lá com uma enxurrada de água.
Mas  não  se faz isso ao nevoeiro.  O bom-senso  falou  mais alto,  e os homens daquele sítio começaram a habituar-se a  viver de  uma  maneira  diferente,  olhando na poeira dos  campos  algo parecido  com o saudoso nevoeiro.  Nessas alturas os  seus  olhos enchiam-se de lágrimas, era a saudade que apertava.
Depois,  tinham  que limpar bem os olhos,  ou passavam a ver muito pior do que antes.  Era o homem a transformar-se,  mas  não podia transformar-se assim tanto. Por isso,  um dia reuniram-se e tomaram uma decisão para que passassem a viver melhor:  todas as semanas, um voluntário partia à procura do nevoeiro.  O que primeiro voltasse com ele, emergido nele, era o salvador.
Os candidatos passaram a ser muitos, mas em breve  aquele sítio ficou sem homens,  e do salvador nem  sinais.
Ficou  um sítio deserto,  só com a poeira dos campos,  e  ninguém para chorar com saudades.

Publicado por Joaquim Semeano em 09:43 PM | Comentários (0) | TrackBack

dezembro 04, 2003

Uma história de Natal

Quando chega este período do ano, as pessoas da cidade começam a preparar-se para o regresso, por alguns dias, à terra natal. Passar a quadra com os velhos pais, os velhos amigos, reencontrar as coisas antigas. Lá chegamos com as nossas prendas da civilização. Mas raramente meditamos a fundo sobre o que nos leva lá. É por isso que um destes dias resgatei uma historinha antiga do fundo das minhas gavetas...


Num  dos  dias  em que me assaltou a nostalgia  do  passado, pensei  em ir até à velha vila,  onde tudo se  passara.  Não  era longe,  e  se  pegasse no carro estaria lá em pouco mais de  meia hora.  Relembrava  o caminho,  acidentado,  com muitas  curvas  e àrvores  altas  mesmo  à beira  da  estrada.  Perigoso. 
Naqueles troncos  escuros e assustadores durante muitos minutos se  haviam perdido os meus olhos,  enquanto o espírito vagueava, apaixonado, pela velha vila onde tudo ficara. Tudo  ou  quase  tudo.  Um resto de mim  sobrevivia  a  esse passado  fascinante,  a esses episódios inesquecíveis que  tinham moldado com precisão este coração romântico e sonhador.  Recordei as escadas,  longas, terrivelmente longas, como se só parassem no céu.  Lá no cimo estava tudo,  ou quase tudo o que eu não  queria deixar.  No cimo estava a felicidade, a concretização dos sonhos, das mais mirabolantes imaginações.
Ao  lado  da escadaria,  entre os arbustos  verdes  escuros, morava  o  castelo,  velho  e encantador.  Ali  havia  uma  outra escadaria  para o passado,  uma dimensão diferente onde eu também me chegara a perder.  E em baixo,  lá muito em baixo,  a vila, as suas ruas estreitas, complicadas, quase labirínticas. A vila onde ficara um pouco de mim.
Pensei  então que o melhor era não ir.  Não podia lá  deixar mais um pouco de mim. Não voltaria sem resgatar o que lá perdera. E  este  era um resgate quase impossível,  e eu não  sabia  mesmo se queria resgatar esse bocado de mim. Fiquei onde estava.

Publicado por Joaquim Semeano em 04:17 PM | Comentários (0) | TrackBack