novembro 24, 2003

Os Cabeças no Ar e a nossa triste nação

Olhar para os cartazes dos Cabeças no Ar enche-me de nostalgia. Eles estão mais gordos e, quando vão à televisão e a luz incide bem nos olhos deles, vê-se que estão mais velhos. Mas quando eles começam a tocar e a cantar, a nostalgia desaparece.

Dá lugar ao orgulho, à certeza de que há ainda em Portugal alguém que faz música de qualidade, e que tem coisas para contar através dessa música. Em lugar da nostalgia, há uma certa raiva que me assalta: pelo silêncio das rádios e televisões em relação à música portuguesa, pela incapacidade que o nosso sistema escolar tem em implantar o ensino da música para que os nossos filhos tenham outros horizontes quando crescerem. No fundo, é uma incapacidade que se arrasta ao resto do país. Leia-se, a propósito, a excelente entrevista de Pedro Abrunhosa ao "Público", para perceber o que uma pessoa inteligente tem a dizer sobre esta triste nação.

Publicado por Joaquim Semeano em 09:27 PM | Comentários (0) | TrackBack

novembro 17, 2003

A arrogância

A arrogância, para mim, é uma grave qualidade. Não sei mesmo se não será um defeito.  Mas eu sempre tive dúvidas nestas coisas.

E com mais dúvidas fiquei quando, estava uma vez sentado a um canto do  Metro,  à espera já não me lembro do quê,  uma rapariga muito bonita,  com ar de estudante do secundário,  veio ter comigo e me perguntou:
-- Porque és tu tão arrogante?
Fiquei preocupado.  Sempre ouvira dizer o pior possível  das pessoas arrogantes.  E,  confesso,  a arrogância também sempre me incomodara muito,  pessoalmente.  Um arrogante não tinha hipótese nenhuma de ser meu amigo. Por isso respondi-lhe peremptoriamente:
-- Não sou nada arrogante!
Mas ela teimou e eu perguntei-lhe porquê.
-- Porque  passas o tempo sentado nesse cantinho,  à  espera não sei do quê.
Achei  que  era  uma explicação  razoável.  Ali  estava  eu, impassível,  arrogante e majestoso como se fosse uma estátua, sem ligar nenhuma a ninguém.  Era mau,  de facto. Levantei-me daquele banco e fui para outro. E ela atrás de mim. E veio outra e disse-me o mesmo.  Comecei a achar aquilo engraçado,  e repeti a graça. Ao  fim de uns dias,  era tudo menos uma pessoa arrogante.  Tinha uma data de gente à minha volta, apontando-me qualidades.

Publicado por Joaquim Semeano em 05:48 PM | Comentários (1) | TrackBack

novembro 15, 2003

Os Ídolos e Compay Segundo

Irritam-me programas televisivos do género "Ídolos", "Operação Triunfo", "Academia de Estrelas", etc. E irritam-me sobretudo porque são apresentados como super-programas, em horário nobre, com super-estrelas: os júris fartam-se de dizer "tu és um cantor extraordinário; há muito tempo que não ouvia alguém cantar tão bem como tu", etc, etc.
Ainda na última sexta-feira tive que suportar o "Ídolos", e as "fantásticas" interpretações de temas musicais do cinema. E o que me choca é que isto está tudo ao contrário: no horário nobre estavam os aprendizes de cantores, jovenzinhos com aspirações, mas que se calhar nem sabem música e apenas sonham ser como os cantores internacionais que admiram; e depois, à uma da manhã, lá apanhei na querida tv um programa com Compay Segundo, grande figura da música cubana, e um velhote que aos 90 anos poderia dar uma lição a todos os aprendizes do ídolos. Assim, escondido, à uma da manhã. Assim, que cultura musical podem as nossas televisões dar aos nossos jovens? Que tipo de sociedade estamos a construir?

Publicado por Joaquim Semeano em 06:10 PM | Comentários (0) | TrackBack

novembro 10, 2003

Medalhas para o peão

Alguém inventou o Dia sem Carros. Demagogia, da mais pura. Nos restantes dias do ano, o carro está sempre à frente dos peões. Porquê celebrar, então, o Dia sem Carros? Já agora, se distribuissem umas medalhas...

Era uma vez...

Um  dia,  na cidade,  tentei apanhar um autocarro.  Passavam todos muito depressa,  e não era fácil. Mas, paciente, lá me meti na fila, atrás de umas dez pessoas que já esperavam alguma coisa. Presumi que era um autocarro, e alinhei. Não era fácil alinhar. O homem  à  minha  frente estava sempre a  mexer-se,  ora  para  a direita ora para a esquerda. Espreitava constantemente, metendo a cabeça fora do alinhamento.  De tal forma que pensei que o melhor seria  cortar-lhe a cabeça.  Estive tentado a  isso,  mas  depois desisti ao pensar nas consequências.  Até é melhor nem falar delas. Mas  deixem-me acrescentar que em breve toda a fila estava  muito mexida,  cada um tentando alinhar com o parceiro da frente, e não conseguindo.
Era  a  fila maia revolucionária em que eu tinha  estado,  e fazia  lembrar  uma turma de  alunos  indisciplinados.  E  poucos minutos depois apanhámos o castigo: o autocarro veio e não parou, deixando-nos a todos desesperados.
Por isso,  fui a pé. Caminhei, que é coisa que as pessoas de hoje fazem muito pouco.  Tornei-me num exemplo.  Enquanto subia a avenida,  fui reparando que as pessoas paravam a olhar para  mim, como se eu fosse despido.  Mas não.  Por acaso,  estava muito bem vestido nesse dia. Fiquei intrigado e perguntei a uma senhora que tinha uns óculos enormes:
-- O que se passa? Porque olham assim para mim?
E ela, muito séria:
-- Não estamos a olhar para si,  nem pense nisso!  Estamos a olhar é para o homem que vai a subir a avenida. Sozinho, imagine-se!
-- O homem? Mas qual homem? Esse sou eu!
-- Isso é que era bom! Não queria mais nada...
E esticou-se toda do local onde estava para tentar localizar o homem.
-- Vai lá à frente, não vai?
Olhei e não vi.  Mas virei-lhe as costas e caminhei,  sempre pela  avenida  acima,  e de novo sentindo os olhares das  pessoas pregados  em mim como se realmente caminhasse despido.  Mas  não. Nesse  dia  até  estava  bem  vestido.   Apesar  disso,  senti-me incomodado  quando  cheguei ao cimo da avenida e  encontrei  umas duas dezenas de pessoas engravatadas à minha espera.  Aplaudiram-me  ao mesmo tempo e dirigiram-se a mim ao mesmo tempo,  como  se fossem um exército.  Estive quase para fugir avenida abaixo,  mas contive-me.
Muito  sorridentes,  chegaram  junto de mim e  deram-me  uma medalha, com uma inscrição qualquer que não percebi. Mas agradeci e  eles,  parecendo muito satisfeitos,  seguiram cada qual o  seu caminho. 
Fiquei espantado, não compreendendo o que sucedera. Mas segui o meu caminho,  normalmente,  depois de me certificar, mais uma vez, que nada de anormal se passava comigo.

Publicado por Joaquim Semeano em 11:41 PM | Comentários (1) | TrackBack

Os trabalhadores da Lisnave

Falar de cultura exige cultura, e cultura é conhecer o mundo à nossa volta e quando não se conhecer admitir que não se conhece. Porque cultura é aprender sempre. Vem isto a propósito da gafe de Bárbara Guimarães quando, num programa de entrevista, esta semana, na SIC Notícias, se referiu aos trabalhadores da Lisnave que, adiantou, lá estavam, do outro lado do rio, em Almada. Esqueceu a nossa querida Bárbara que a Lisnave fechou há mais de um ano, e que os ex-trabalhadores da empresa, se estão do outro lado do rio, quando muito talvez estivessem a ver a Operação Triunfo ou coisa do género enquanto esperam pelo subsídio de desemprego. Se calhar, a verdadeira cultura está em lembrar estas situações, que proliferam pelo nosso país.

Já agora, um elogio à Bárbara, que reuniu na entrevista Rui Reininho e Xana, dois talentos da música portuguesa, que deveriam ir mais vezes à televisão, porque têm uma história e coisas para contar.

Publicado por Joaquim Semeano em 07:57 PM | Comentários (0) | TrackBack

novembro 08, 2003

HISTÓRIA SECRETA DOS HOMENS

O vício do homem pelo dinheiro é sobejamente conhecido. Basta olhar para as nossas cidades e para o poder que sobre elas tem o lobby dos construtores civis. Etc, etc. Mas nunca é demais lembrar esse vício numa história secreta...

Subitamente,  o  céu  escureceu  e uma  terrível  tempestade desabou sobre o local onde estávamos. 
Saí para a rua, feliz pela água que caía, ansioso por lavar todos os pecados, e  fiquei  surpreso: do céu não caíam gotas  de  àgua,  mas sim moedas,  muitas moedas. Fiquei, claro, bastante decepcionado.
Sentei-me  num  dos degraus  da escada, desolado,  enquanto outras  pessoas  saíam à rua e festejavam tão  grande  sorte.  Um velho,  que devia ter uns oitenta anos,  ou mais, aproximou-se de mim com as duas mãos cheias de moedas, e mal conseguia falar.
-- Veja... veja... -- só conseguiu articular.
Eu vi e não disse nada. Se lhe dissesse o que realmente via, provavelmente ele enlouqueceria.  Ou tentaria acabar  comigo.  Os seus  olhos já brilhavam de uma forma pouco ou nada  humana.  Por isso, logo que ele me voltou as costas, estendi a perna direita e rasteirei-o como se fosse uma criança.  Ele caíu pesadamente, mas nem um grito de dor lhe ouvi.  Continuou muito feliz, porque caíu numa terra pejada de moedas.

Publicado por Joaquim Semeano em 05:30 PM | Comentários (3) | TrackBack

novembro 05, 2003

Viva Michael Stipe

Sempre gostei dos R.E.M., logo desde os primeiros sons que lhes ouvi, ainda, se bem me lembro, no velho "Som da Frente" do António Sérgio. Depois, fui comprando todos os discos, e só falhei o último, ainda nem sei bem porquê. E li as entrevistas, e fui admirando Michael Stipe e companhia.

Hoje, continuo a dar por bem empregue o tempo que passei a ouvir os R. E. M., e dei agora por muito bem empregue o tempo que passei a ler a entrevista que Michael Stipe concede ao suplemento "Actual", do "Expresso" do último sábado. Não propriamente pelas referências que faz à escolha das músicas para a colectânea que lançaram, mas sobretudo pelo que diz do seu país, os Estados Unidos, e da administração Bush. Diz Stipe que se sente no "ventre da besta". A não perder.

Permitam-me, então, que guarde para este cantinho essas palavras que nos dão ânimo e fazem pensar que ainda há, no país mais poderoso do mundo, gente que se preocupa com a evolução da espécie humana:

"É muito difícil ser cidadão americano e não ser obrigado a reconhecer o que se passa com a actual Administração. Nacional e internacionalmente. (...)

"Ao ver-se a televisão americana, pode-se ser levado a acreditar que, neste país imensamente poderoso, a maioria das pessoas acredita que a acção do Governo é positiva. Eu discordo. Há, pelo menos, metade da população que discorda também. Os EUA são um país onde as pessoas trabalham imenso, muitas têm de ter dois empregos, têm de pagar os seguros do carro (e sem automóvel, à excepção de Nova Iorque, não se vai a lado nenhum), da casa, da saúde, de vida, o serviço nacional de saúde não é muito bom, é preciso esforçar-se a sério para pagar a universidade dos filhos, a hipoteca da casa, é necessário haver comida na mesa, máquinas de lavar... A maioria dos americanos tem, no máximo, 45 minutos por dia para dedicar ao que se passa no resto do mundo. Não que não se interessem por política. Têm é todo o tempo ocupado a assegurar que não vão ao fundo. (...)

"É, de facto, um bocado infernal. Adoro o meu país e tem muitas coisas de que me orgulho. Mas uma das coisas que não se compreende é o quanto estamos separados do resto do mundo. E como isso se reflecte na nossa educação desde os primeiros anos e influencia as escolhas, os preconceitos, a forma como se vê os outros, o que sabemos e o que não sabemos. É um imenso país ingovernável. É uma pena".

Publicado por Joaquim Semeano em 12:26 AM | Comentários (1) | TrackBack

novembro 01, 2003

História Secreta do Homem

Todos os dias o homem nos dá que pensar. Cada vez mais intrigante, esta espécie acumula cada vez mais facetas difíceis de entender. O que vale é que no fundo do Bosque eu encontrei uma manuscrito que após muito esforço consegui traduzir. Aqui vai o primeiro pedaço. Depois há mais, mas ainda estou a trabalhar neles...

1
Vi aquela mulher a dançar no cimo de um monte, e fiquei um dia inteiro a pensar nela. No vulto negro rasgando o horizonte.
Ainda estava assim, a pensar, quando ela veio ter comigo.
-- Tu não tens juizo nenhum. -- disse-me.
Eu, é claro, fiquei admirado. Não ter juizo nenhum era coisa que nunca me passara pela cabeça. Por isso, perguntei-lhe porquê.
E ela, com um sorriso incrível:
-- Nunca se olha uma mulher a dançar no cimo de um monte.
-- Não? Mas eu gosto...
-- É perigoso.
E apontou para o monte deserto, uma sombra sem encanto, demasiado pesada no horizonte.
-- O cimo de um monte é um lugar perigoso. Um lugar cheio de enigmas, um lugar do luar. Com uma mulher a dançar, tudo pode acontecer.

2
A noite escura caiu sobre o monte pesado. E lá estava eu, triste e sem dançar, louco por vê-la de novo.
Então vejo, estremecido, a magia chegar. Vem na forma de um cavalo iluminado, deixando o seu rasto fantástico desde a lua que me enfeitiçava. Vem só, e nunca mais pousa. Que angústia!
Decido-me a saltar, com coragem, e consigo finalmente agarrar uma estrela. Sou eu mesmo que vou ao encontro do cavalo de luz.
-- Olá, de onde vens? -- pergunto-lhe.
Ele sorri, e eu reparo que tem a cabeça de um rei.
-- Venho governar a terra. -- responde.

3
Alguém vem, sozinho, pela estrada abandonada. Um homem, talvez. Ouço o barulho do motor, como um leão sonolento.
Escondo-me nos arbustos à espera que ele passe, mas de nada resulta. Demora, demora, nunca mais vem.
Esperto, pára o carro e olha para o sítio onde estou.
-- Que me queres? -- pergunto-lhe, mas não me mostro.
-- Vem cá...
Mas não vou. Pelo menos tão depressa. Fico em silêncio à espera que ele diga mais alguma coisa. E diz!
-- ... sou o primeiro dos teus antepassados!
De imediato, dou um salto e vou para junto dele. Sempre tinha sonhado conhecer os meus antepassados.
-- Anda comigo. -- diz, pegando-me na mão.
Então põe o carro a trabalhar e levantamos voo.

4
Ela estava sentada no outro canto da sala de espectáculos. No entanto, eu vi-a logo que entrei, e de imediato fiquei conquistado.
O que mais me fascinava era a pomba que ela tinha sobre a mesa. Branca como o vestido dela, olhava-me fixamente com os seus miúdos olhos negros.
Mal me sentei, levantei-me. Incapaz de resistir, fui perguntar-lhe:
-- Onde arranjaste essa pomba?
Ela riu muito. Às gargalhadas.

5
-- Isto é muito bonito. -- disse eu ao meu amigo quando fômos visitar aquele museu.
Ele riu-se, é claro. É que tudo aquilo era mesmo muito feio.
Mas eu achei muito bonito. E depois, quando a vi atravessar a sala, com o quadro debaixo do braço, corri atrás dela e acabei por me ajoelhar na sua frente.
-- És a mulher dos meus sonhos. -- disse-lhe, mas ela riu, riu muito.
-- Queres o quadro? -- perguntou.
E enfiou-mo logo pela cabeça. Eu agradeci, e continuo a achar que tudo aquilo era muito bonito.

6
Num entardecer, estava eu sentado na cancela florida quando eles vieram, num grande grupo, buscar-me para a brincadeira.
-- Vem connosco! Vem connosco! -- gritaram.
Puxaram pelos meus braços e levaram-me até um vale, tão circular que parecia uma arena, no meio do qual estava uma velhinha a fazer bolos de amêndoa.
-- Toma, come um. -- disse-me.
Eu comi, e de imediato comecei a levantar voo, como se fosse um balão solto por criança distraída. Enquanto mastigava e me regalava com o doce, pus-me a gritar:
-- Acudam! Acudam!

7
Volto a acordar numa praia enorme, aparentemente infinita. Levanto-me para arrastar a cadeira até mais perto das ondas sonolentas.
Sentado na areia molhada está um jovem. Um prisioneiro, parece-me...
-- Sei que estás preso porque tens grilhetas nos pulsos... -- digo-lhe.
Ele olha-me fixamente, e sorri, superiormente.
-- É por isso que não tens medo de mim, não é?

8
Sentado ao sabor da tarde solitária, aqui estou eu, à espera, à espera.
Ao longe, para lá da janela da cabana, caminha um pastor, de grande casacão cinzento. No cimo da montanha, espera um índio, fumando calmamente o seu cachimbo.
-- Porque estás tão desinquieto? -- pergunta-me ela, assomando ao meu corpo.
-- Temo pela verdade do pastor e do índio.
Desvio-lhe o lençol branco no ombro e pouso na sua pele os meus lábios enfurecidos. Volto a olhar pela janela, o pastor e o índio já desapareceram, no lugar de ambos está agora um grande falcão, recebendo a noite.

9
Caminho pelas longas ruas mal iluminadas, num silêncio imenso. Só se ouve o bater das minhas botas no alcatrão molhado. Já vieram chorar a avenida. Como se fosse um caminho sagrado.
Ela está sentada num banco de jardim, vermelho, da cor dos seus lábios. Também o rosto dela está cheio de orvalho.
Então aproximo-me. Na mão direita levo um balde e um pincel. Sento-me junto a ela, e dou-lhe mais uma pincelada.

10
Cofiando o bigode, sentei-me à mesa. Um homem coxo aproximou-se muito depressa.
-- Que... que deseja? -- pareceu-me ouvi-lo perguntar.
-- Um bife! Muito bem passado.
-- Sim... sim, senhor. E... e para beber?
-- Vi... vinho. Da... da casa.
-- Sim... sim, senhor.
E lá foi ele, a coxear. Voltei a cofiar o bigode, sorridente, e lembrei-me de ir à casa de banho, ver se estava tudo bem com a gravata.
Levantei-me de imediato e fui apressado. Tão apressado que tropeço nos pés estendidos de um homem que parecia o coxo. Sorriu para mim, parecia ligeiramente espantado com a minha queda. Sim, como era possível que eu tivesse caído num espaço daqueles, com o meu bigode cofiado e a minha gravata lindíssima?
-- Que...que deseja? -- pareceu-me ouvi-lo perguntar.

11
Pus um pé sobre aquele mármore novinho em folha, e foi como se um gigante tivesse aterrado. Senti-me mal, por chamar assim tanto a atenção.
Por isso, descalcei-me. As outras pessoas que ali esperavam ficaram todas a olhar para mim. Não percebi bem porquê, e pus-me a pensar nisso logo que me sentei.
Até que vi um pequeno buraco numa das minhas peúgas, que deixava à vista a ponta do dedo gigante do meu pé direito. Dos grandes.
Houve pessoas que começaram a rir, e outras a chorar. Por isso, tirei o meu lenço do bolso das calças e enrolei-o à volta do dedo do pé, tapando-o.
-- Obrigado. -- disseram as pessoas todas, voltando à sua pose inicial.

12.
As coisas vão quentes, lá pelo écran. Um homem foge, desesperado, e vem direito a nós. Antes de ele passar por mim, espreito sobre o ombro da enorme mulher que se sentou à minha frente, a ver se alguém o persegue. Não, aparentemente ninguém.
Desvio-me a tempo de evitar os pés dele, no momento exacto em que ele passa por ali. Espanto-me com a minha calma, e irrita-me que nem a mulher da frente se tenha assustado. Continua sentada no mesmo sítio, impávida e serena.
Volto a espreitar-lhe por cima do ombro. No écran, há agora uma montanha enorme, amarelada, e levanta-se uma pequena poeira, ao longe. Desta vez fico aflito. Logo hoje, que trouxe o fato novo! Sentindo necessidade de me esconder antes que eles passem, festejo finalmente aquela mulher enorme que se sentou à minha frente. Volto a saltar por cima do seu ombro e enfio a minha cabeça no seu peito incomensurável.

Publicado por Joaquim Semeano em 06:01 PM | Comentários (0) | TrackBack