O país está às escuras. Às escuras com a pedofilia, os BB, as desgraças do Alqueva, as insanidades da Defesa, a perda de identidade cultural, a guerra nas estradas... enfim, o país talvez nunca tenha estado tão às escuras. Como é que eles não deveriam estar todos na Luz?
Pois é, não foram capazes de resistir: afinal, se há clube do povo, do povo mesmo, neste país, esse é o Benfica. Viu-se. E eles, os nossos políticos, sabem disso. E não resistiram à possibilidade de falarem, ao vivo, para esse povo, eufórico, nas bancadas, certamente, pensavam eles, grato pela enorme dádiva de um estádio novo e brilhante, em vez dos hospitais, das escolas, da educação, essas coisas que não interessam a um país que quer desenvolver-se...
Mas o povo, afinal, não perdeu toda a sua lucidez: e o nosso Primeiro viu-se vaiado por todo um estádio, construído novinho em folha, para o nosso precioso Euro. É o cúmulo da ironia: um homem compra um papagaio e ele ri-se-lhe na cara...
O mundo da literatura perdeu esta semana um dos seus nomes maiores: Manuel Vazquez Montálban, figura incontornável da cena espanhola, paixão inevitável para quem gosta de mistérios e policiais. Era um homem novo, ainda, e ficam muitas histórias por contar, há todo um universo que fica orfão. Interrogo-me o que acontecerá agora a Pepe Carvalho, esse detective gordo, anafado, cheio de defeitos, mas incomensuravelmente humano, marcante para qualquer leitor. Aconteceu comigo, que apenas li um livro de Montálban, "Os Mares do Sul", e jamais o esqueci. Apenas um reparo: para quem, como eu, prefere a comida vegetariana, Pepe Carvalho alimentava-se muito mal.
Perdi-me, durante este Verão, do Bosque Ocidental. Agora, reencontrado o caminho, reactivo estas reflexões humildes sobre o nosso mundo, sob um novo modelo de blogue (ainda estou a adaptar-me, que não sou particularmente lesto nestas andanças), procurando recuperar a minha veia literária, velha paixão que nunca me abandonou mas que eu tenho abandonado em demasia.
Ainda num destes dias li num livro sobre a leitura do rosto que os cabelos a crescerem nos ouvidos significam um talento não aproveitado. Olhei-me com mais atenção ao espelho, e lá estavam eles. Significará isto um talento escondido? Será que o descubro? Será que já sei? Sabemos nós do que somos verdadeiramente capazes?
A propósito de talento, umas palavras sobre pessoas verdadeiramente talentosas, essas que durante anos constituiram a injustamente esquecida Banda do Casaco, que de vez em quanto redescubro com infindável prazer. Adquiri recentemente um dos clássicos do grupo, "Coisas do Arco da Velha", e ando a apreciar as músicas, as letras, todo aquele ambiente arrancado à alma do povo português, lamentando, ao mesmo tempo, que actualmente a nossa cena musical praticamente não tenha projectos destes. É a nossa cultura a desaparecer, em prol das letras em inglês, dos depressivos grunges e seus congéneres.
Aqui no Bosque quero voltar mais vezes a este tema: há muita coisa para desenterrar na cultura portuguesa.