O MUNDO DAS PESSOAS SEMPRE A RIR
Descobriu um dia um mundo onde todas as pessoas sorriam. Havia gargalhadas por todo o lado. Quando o viram transpor as portas daquele mundo, quase morreram a rir. Deitavam-se no chão, saltavam, subiam às àrvores sempre a rir.
Ele, a princípio, estranhou um pouco tudo aquilo. Depois, habituou-se e começou também a rir, muito, muito, e em breve estava como todos eles, perfeitamente integrado naquele novo mundo de gargalhadas.
Alguns anos depois, porque lhe doía a garganta de tanto rir, começou a chorar. Os outros estranharam, rodearam-no, não gostaram das suas lágrimas e mandaram-no embora.
Ele, então, regressou ao mundo anterior. Reencontrou velhos amigos, velhos objectos, velhas paisagens. E continuou a chorar, de emoção e de alegria.
O ZERO
Apercebeu-se subitamente
do zero em seu rosto.
Desesperado correu,
perdendo de repente
mil lágrimas de desgosto.
SELVAGEM
Há muito tempo que ela corria como uma selvagem. Ninguém a conseguia parar. Os seus olhos tinham uma luz sobrenatural, e os restantes sentidos um poder magnético que a todos paralisava.
Mas houve um dia em que no seu caminho apareceu uma criança a chorar. E, pela primeira vez em muito tempo, a fera parou e voltou a ser humana. Pegou na criança, levou-a ao colo e contou-lhe muitas histórias.
Quando a criança cresceu sabia grande parte das histórias do mundo.
Para ler aos nossos filhos
A ESTRELA
Quando acordou, viu-se deitado naquilo que parecia uma nuvem, muito fofa e branca, mas não conseguiu definir exactamente o que aquilo era. À sua volta girava um espaço vazio sem fim, iluminado por milhares de estrelas. Parecia estar no céu! Ou antes, no espaço, que nas noites terrestres tantas vezes olhara com encanto e curiosidade. E ali estava a Ursa Maior, mais próxima que nunca! E todas as outras constelações que estudara em vários livros. Olhou para baixo, esperando ver a Terra, mas nada viu, nem sequer teve vertigens!
Levantou então um braço e, para surpresa sua, o braço esticou, esticou, e conseguiu agarrar uma estrela. Puxou-a para baixo, entusiasmado. Era uma pequena estrelinha prateada, parecida com aquelas que se costumam colocar na árvore de Natal. Descuidado, deixou-a cair, e ela desapareceu no vazio.
Esteve um bocado indeciso, até que reparou numa corda que estava atada á sua nuvem. Avistou então alguém que vinha subindo pela corda. Era uma linda rapariga de cabelos de ouro.
-- Foste tu que deixaste cair a estrela? – perguntou-lhe ela, com um sorriso. E estendeu-lhe a estrelinha prateada.
Ele agarrou e disse:
-- Obrigado.
O ANTEPASSADO
Quem vem sozinho pela estrada abandonada? Será um fantasma, um deus?
Escondo-me nos arbustos à espera que ele passe, mas isso em nada resulta.
Ele pára o carro, e olha para o sítio onde estou.
-- Que me queres? -- pergunto-lhe, mas não me mostro.
-- Vem cá... eu sou o primeiro dos teus antepassados!
De imediato, dei um salto e fui para junto dele. Sempre tinha sonhado conhecer os meus antepassados.
-- Anda comigo. Vou levar-te a conhecer o teu país.
Então pus o carro a trabalhar, e este levantou voo. Agora continuo à espera que ele aterre.
O CHORO
Enleado nos seus próprios tentáculos
o homem chegou à ponta do abismo
e fez um desenho.
Com o dedo pregado na rocha de ouro
arrastou o símbolo do brilhantismo
e fez um desenho.
A montanha então abriu-se em duas
e no meio apareceu um tesouro.
E ele fez um desenho.
Com o peso o tesouro afundou-se
na terra como se esta fosse mar.
E ele fez um desenho
e começou a chorar.
UM HOMEM ROTO
Um homem roto chegou num carro roto. Saíu para fora e olhou com atenção o palácio que eu construí.
-- Isto foi tirado de um livro. -- disse.
Eu fiquei admirado. Ele não era daqueles de lerem livros.
Mas ele repetiu o comentário e eu comecei a acreditar.
De qualquer maneira, disse-lhe que não estava a falar verdade. Em nenhum livro havia um palácio como o meu.
Mas ele comentou:
-- O livro que eu li foi o que tu não leste.
Como é possível? Há algum livro que eu não tenha lido? Mas, se ele o diz... existe, concerteza, um livro aonde eu não pude chegar.
O meu palácio, assim, já parecia uma coisa falsa, tendo pouco sentido para existir. Talvez seja melhor destruí-lo, procurar o tal livro e depois construir outro palácio. Sim, talvez seja melhor...
TEATRAL
Um dedo estendido,
o círculo na areia,
o homem estendido
em volta de si mesmo.
Nem murros nem riscos
na porta das ideias.
O homem entendido
na sua morte teatral,
absorvendo o perfume
da pele acidental.
A PRIMEIRA PALAVRA
Um homem chamado Sansão chegou um dia à beira de um precipício e parou. O homem tinha longos cabelos negros e um olhar profundo como se fosse deus de alguma coisa. Ficou ali durante muito tempo, deixando, indiferente, passarem por ele os dias e as noites.
Quando finalmente se decidiu a abandonar o local, estava uma manhã vermelha, um céu envergonhado e estranho. O precipício, esse, ficou mais enevoado até ao cimo, como se cheio de algodão para amortecer as quedas.
Abandonado aquele local, o homem dirigiu-se para uma cidade, onde corriam muitas pessoas de um lado para o outro, como se alguma coisa de grave, para além do nascimento do homem, tivesse acontecido.
Apesar disso, o homem, descontraído e sem fazer caso de toda aquela agitação, sentou-se a uma esquina, com um caderno na mão. Puxando de uma esferográfica, começou a escrever.
À primeira palavra escrita, toda a gente que corria parou imediatamente. Foi uma coisa impressionante. O homem chamado Sansão ficou muito surpreendido, e durante todo o tempo em que durou essa surpresa passaram muitos dias, muito vento e muita chuva.
Quem comeu os peixes de Melides?
O massacre dos peixes não vai, certamente, fazer vítimas. Entre os homens, quero eu dizer, essa espécie devoradora que vai destruindo o mundo à sua volta. Aqui, no mundo ocidental, ficamos todos muito desgostos quando estes casos acontecem. Fazemos uma cara consternada, damos exclamações de espanto quando vemos os noticiários, e esperamos. Pelo inquérito, pelo grupo de trabalho, pelo relatório, pelas investigações de que nunca mais saberemos os resultados. O massacre de Melides vai certamente ficar impune. Peixeiradas.
A definição de mistério
Abri a janela de par em par porque estava um calor tórrido, difícil de suportar. Atrás, em cima da cómoda, pus a rodar uma cassete dos Rolling Stones. Quase deixou de se ouvir quando fui à janela abraçar o fresco que vinha do exterior. Mas depois, quando voltei para dentro e me sentei na cama desfeita, ouviram-se nítidamente os sons melodiosos e agressivos.
Mesmo assim, estava um calor insuportável. Voltei à janela, voltei a abraçar o vento ainda morno, vi uma mulher bonita atravessando a rua, elegante, bem vestida, os cabelos negros de azeviche. Na casa em frente, outra mulher, mais idosa, varria o ‘hall’ da entrada.
Sentado nas escadas, a olhá-la, estava um homem de mau aspecto, os cabelos castanhos desgrenhados, uma enorme cicatriz atravessando-lhe a face bem cavada. Com um olhar severo, olhava em frente a mulher que varria, mas a sua mão esquerda, caída e independente, acariciava lentamente um gato branco que ali repousava, mole, quase adormecido.
A mulher, essa, tinha um aspecto humilde. Um grande vestido castanho claro às bolas vermelhas. Chorava silenciosamente.
Como eram oito horas, levantei-me, encostei a janela, fechei a gaveta onde tinha o livro de Jean Cocteau, desliguei a música dos Stones e desci. Fui jantar, e levei comigo uma revista de jogos misteriosos.
AR
Do que precisamos nós para respirar?
Do ar, dizem.
E das outras coisas...
Dos amigos com quem falamos,
Do texto que escrevemos,
Dos jogos que ganhamos,
Dos livros que lemos.
Do que precisamos para respirar?
De tudo em volta
E do ar cada vez menos.
Um velho muito velho
Um velho muito velho com um velho chapéu na cabeça.
Rita Lee chegou e disse:
-- Doença de amor só cura com outro.
Mas o velho muito velho começou a chorar.
Rita continuou a cantar. Até ficar exausta. No final o velho muito velho já sorria. Cortêsmente, tirou-lhe o chapéu e na sua cabeça apareceu uma multidão de cabelos a aplaudir.
O DRAGÃO
Do castelo empedernido
o dragão vislumbra o lago
escuro, pobre e sujo.
Como sempre decidido
abre a bocarra e boceja.
O que há de especial num concelho?
Esta semana assistimos a mais manifestações públicas que espelham a dificuldade de pensar e reflectir que marca as gentes do nosso amado país. A propósito da passagem da sua terra a concelho, houve quem jurasse que era o dia mais feliz da sua vida. Mas, interpeladas sobre a razão dessa infelicidade, as pessoas não conseguem responder. Porque, num país que infelizmente rejeitou hà pouco tempo a regionalização, não fazem sentido estas lutas intestinais pela passagem a concelho, só para se sentirem tão importantes como os vizinhos da terra do lado. Esta é a parte mesquinha do ser português, o mais triste é ver que o Governo embarca nisto e -- se calhar por interesses políticos -- ainda acede a gastar tempo e dinheiro nestas parvoíces.
Um dia na Blogosfera, aterrou um homem muito esquisito. Andava, olhava e sentia como se fosse muitos, como se estivesse partido em milhões de bocadinhos, milhões de espelhos. Parecia ter uma infinidade de olhos, de mãos, de braços, de pernas. Eventualmente, de cérebros.
Era a primeira vez que os habitantes daquele planeta viam um homem assim. Ficaram preocupados. Havia, também ali, regras a cumprir, determinados princípios que faziam da Blogosfera o orgulho de todos os que ali habitavam. Aquele homem não tinha o perfil.
Por isso foram perguntar-lhe:
-- Quem és tu?
-- Eu? Eu sou o Mito da Blogosfera.
Então, desenharam-lhe o perfil e inscreveram-no. A partir daquele momento, a Blogosfera passou a ter Mitos. O Mito I, o Mito II, o Mitinho, etc, etc...
NOTA: a Blogosfera não é um Mito.