“Quando cheguei a casa, eu vinha de muito longe e estivera ausente durante longo tempo. Estivera, até, quase me atrevo a dizer, noutro tempo, noutra dimensão, noutra vida. Estava desgostoso com muita coisa, desiludido e com uma estranha força para lutar.”
Delman era um pequeno deus. Vestido ainda com o dourado dos príncipes, enchia-lhe o espírito um vento de aventura e rebeldia.
Olhando-o de volta dos seus brinquedos, a mãe pensava:
-- Quando fôr crescido, vai ser terrível!
Só uma coisa podia controlar os nervos de Delman: as barbas compridas de um velho sábio.
-- Olha que ele vem aí! – avisava-o a mãe.
Mas depressa Delman, o pequeno deus, compreendeu que até à chegada do velho haviam mais umas coisas para partir.
Foi assim que cresceu e se fez um deus como nenhum outro, com repentinos ataques de criancice. Estes ataques eram estranhos e ninguém os compreendia. A mãe, que sempre esperara outra coisa do verdadeiro deus Delman, depressa molhou umas lágrimas debaixo do travesseiro e convenceu-se de que não educara bem o seu menino.
-- Não sei o que ele procura nas suas criancices... – lamentava-se em conversas com as vizinhas.
Certa noite, procuraram um deus feiticeiro, e ele deu-lhes a resposta:
-- Ele procura uma sombra.
Fim de ano
Os Beatles cantam Yellow Submarine. Qualquer evocação imprecisa. União e amizade. E depois o Hotel California, onde desembocam belezas e doçuras, e um romantismo que só em vagos momentos sabemos sentir. É nestas alturas que o teu olhar se torna inesquecível. A única parte de ti. Para lá das palmas e dos gritos, das piadas e dos encontrões. Não é amor, nem sequer é paixão. É melodia, pura, a melodia dos corpos e das existências, duas vidas que se cruzam subitamente, um romance etéreo, rápido e imortal.
A vontade súbita de falar, de quebrar todas as barreiras, de descobrir como se vive para lá do muro.
A música continua. O espectáculo também. Permanece a vida no mundo. O amor, o ódio, estupidamente. A melodia e a desafinação. A variedade incrível das coisas e de ti. A fada boa e a fada má. Saibamos passar o tempo.
31 de Dezembro. Está uma bela noite.
Através do frio e do nevoeiro
movimentam-se os lobos
lentamente
Os faunos cantam escondidos
atrás da árvore de Natal
Na realidade o silêncio
pesa tanto como o escuro
Perde-se na noite confusa
o maravilhoso cantor pop
Ela enfeita a sensibilidade
no rendilhado manto da fantasia
Esta noite todas as coisas
Podem ser cantadas por ti
Novelinha dramática em 7 episódios. Sete? Pois, acaba aqui... alguém percebeu alguma coisa?
7.
No bar do esquecimento, Luca Santitore bebeu desmesuradamente. Quando saíu, amparado por Leda, que era tudo menos a rapariga dos seus sonhos, teve uma súbita ilusão. Viu ao longe, de pé sobre o banco do jardim, o velho Tor empunhando com um orgulho único uma enorme caneca de cerveja.
Do fundo das barbas sem fim, ouviu-se então a voz de Tor:
-- À tua saúde, tu que não queres ser um deus!
E, de um trago, bebeu como quem mergulha com desespero até ao fundo do mar. Gaivota perdida.
-- À tua saúde! – gritou Luca, perfeitamente embriagado.
Então correu e Leda não teve artes de o segurar. Saltou para o banco e, lado a lado com Tor, cantou o hino nacional.
Comecei assim a história de Alcaluz, e depois desisti. Alguém quer continuar a ficção?
O REGRESSO DE ALCALUZ
Depois da estrada não havia mais nada. Alcaluz olhou para o fim e dele se apoderou um sentimento estranho, que nunca julgara sentir. Talvez o medo.
Baixou-se a tempo de evitar o golpe de um pássaro escuro que ali passou a alta velocidade. Olhou-o, fascinado, sorriu quando o viu desaparecer no azul acinzentado das montanhas ao longe, para lá, muito para lá, do fim da estrada.
Sentou-se, e não sabia o que esperar. Só sabia que as coisas não continuariam assim. Quando tivesse fome e sede voltaria ao pequeno café. Que ainda estava, certamente, deserto. Só para si. Dos amantes não se esperaria tão cedo o regresso à crueza da vida real.
Alcaluz voltou a ser invadido pela inveja. Chamar-lhe-ia nostalgia, mas de nada se lembrava. Não havia nada no seu passado que o fizesse ficar nostálgico. Era impossível, pensou, voltar um dia de uma guerra distante, abrir a porta, olhar a mulher e dizer-lhe com olhos doces que estava ali e temia que ela não se lembrasse dele. Era impossível. Não havia uma porta para bater. A não ser a do café abandonado. Por isso, ficou e esperou. Aliás, abria-se um belo dia. Um sol esplendoroso acolhia aquele homem perdido.
PERDIDO
Assento este pé sobre a terra
a muitas milhas do mundo.
Olho ao longe,
lá bem por cima da imaginação.
Aqui estou eu,
perdido na multidão.
Novelinha dramática em 7 episódios
6.
Numa aldeia do mundo escondido, uma criança apareceu a chorar muito. A mãe, aflita, correu para a rua e recebeu-a nos braços. Sem lhe perguntar o que se passaval chorou com ela.
Vieram mais pessoas e ficaram embevecidas, olhando a ponta da bengala de Charlot.
Tudo acabou em grandes gargalhadas.
A criança disse que tinha visto um homem com uma caneca do tamanho duma casa.
No final do divertimento, cada um voltou à sua vida. Na rua abandonada, ficaram as crianças, brincando com as pedras e a ponta da bengala de Charlot.
Em breve, muito em breve... o último capítulo desta historieta sem sentido!