Deparei no último sábado, quando seguia com o meu filho para o jardim, com uma manifestação do Bloco de Esquerda. Um contacto, ao vivo, com as eleições, que em geral me têm passado completamente ao lado, sem que sinta minimamente a falta daquelas habituais discussões estéreis. Mas registei o que vi. Subitamente, foi como se assistisse a um daqueles filmes do tempo em que os trabalhadores ainda vinham para a estrada a exigir os seus direitos. Os manifestantes, que não eram muitos, enchiam um dos passeios da estrada, e seguiam resolutamente na minha direcção. Passei para o outro lado, mas fiquei a observar: a multidão avançava, como se tivesse um objectivo definido, e à sua frente, de olhos fixos em algo, seguia, decidido, Louçã, subitamente transformado, para mim, em personagem de cinema, vestido da pele de tantos que, ao longo do século XX, se entregaram à defesa dos direitos dos trabalhadores. Gostei.
Gostei mais do que da cena a que assisti, via televisão, numa reportagem sobre uma sessão de esclarecimentos de Paulo Portas em Almada. A jogar em terreno que lhe é desfavorável, o líder do PP apresentou-se muito sereno, com um ar muito sério e circunspecto. Com esse mesmo ar, mandou calar alguém que, na assistência, dissera alguma coisa mais incómoda. "Meu senhor, estamos aqui para falar com serenidade". Foi mais ou menos assim que PP o meteu na ordem. Como já alguém disse, "o povo é sereno".