janeiro 01, 2005

A MOSCA E O ELEFANTE

Quando a mosca morde, o elefante abana as orelhas. E o ser humano, que se crê em estado de superdesenvolvimento, pouco mais faz do que isso quando é incomodado. À espécie humana falta ainda a capacidade para ver mais longe. Ver para lá das feridas actuais.
O corpo da Terra foi perigosamente atingido no sudeste asiático, e ainda não vi serem disto tiradas as devidas ilações. Desperadamente, o mundo ocidental acorre à ferida, tentando tapá-la, estancar o sangue com milhões de euros e dólares de ajuda. Em breve, depois de mais de cem mil mortos, a maior catástrofe de que há memória, o mundo voltará à sua vida do dia a dia, eventualmente coxeando um pouco durante uns tempos, para depois recuperar e apenas lembrar o fatídico dia com um memorial.
Porém, em vez de nos convencermos de que as catástrofes naturais são inevitáveis e fazem parte do inexorável fim do mundo, deveríamos ser capazes de reflectir sobre o que se passou e em pensar no que fazer para evitar outras catástrofes... que são evitáveis: não desdenhemos das batalhas ecologistas; não coloquemos, à frente dos destinos do mundo, os interesses financeiros de grandes grupos económicos, em vez de acautelar o degelo, a destruição da camada de ozono e a poluição das águas do mar até limites verdadeiramente indecentes. Se não o fizermos, em breve até poderemos ter completamente cicatrizada a ferida do sudeste asiático. Mas o resto do corpo da Terra poderá estar fatalmente doente.

Publicado por Joaquim Semeano em janeiro 1, 2005 10:11 PM
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