Quase desde o início desta aventura dos blogues que tinha a intenção de colocar aqui um post sobre Jeff Buckley. Jeff, ele mesmo. Para quem não sabe, trata-se do melhor roqueiro dos finais do século XX, o melhor intérprete da tradicional músico anglo-saxónica, tão versátil que é capaz de passar, numa só música, do hard-rock ao blues, passando pela canção francesa e pelos sons orientais. Quem é este homem, capaz destas proezas? Pois, alguém sobrenatural.
É que Jeff deixou-nos há alguns anos, apenas com um álbum de originais gravado, o sagrado "Grace". Após a sua morte prematura, sucederam-se no mercado uma série de gravações do génio, desde espectáculos ao vivo a temas originais que estavam em embrião na altura do seu desaparecimento. Os discos continuam a surgir no mercado com tanta regularidade que é como se Jeff estivesse vivo.
Este impulso, de escrever sobre Jeff Buckley, surgiu-me porque hoje, enquanto fazia, de carro, o caminho entre casa e o emprego, estive a ouvir uma dessas gravações e regalei-me a ouvi-lo interpretar um tema de Nusrat Fateh Ali Khan. E o que me impressionou, para além do brilhantismo da interpretação (natural em Jeff Buckley) foi o início, a sua conversa com o público.
"He's my Elvis; he's my guy", diz Jeff, referindo-se a Nusrat, um extraordinário cantor e intérprete paquistanês. É, desde logo, sensacional ouvir isto de um jovem cantor norte-americano: o seu Elvis não é o Presley, mas um Ali Khan representante de uma sociedade e de uma cultura completamente diferentes; é desta abertura de espírito que é feito o génio de Buckley.
Depois, desafia a plateia: "Posso cantar qualquer canção dele. Querem escolher?". Os espectadores riem, estupefactos, pensam que ele está a gozar. Como ninguém, obviamente, é capaz de escolher uma canção de Nusrat Fateh Ali Khan, Jeff avança: "Vou cantar a primeira canção que aprendi dele".
Aos primeiros requebros da voz, tipicamente àrabes, ouvem-se risos na plateia. Mais uma vez, pensam que Jeff está no gozo. Mas ele não pára. Segue, brilhante, único. A sua interpretação termina com o público a bater palmas ao ritmo oriental da música, a plateia perfeitamente rendida à beleza de um som que, vindo do outro lado do mundo, consegue unir assim ocidente e oriente. Uma lição.
Jeff Buckley não era alguém sobrenatural. Estava era à frente do seu tempo. E ainda muito à frente do nosso.
Estava ouvindo Live at Sin-é Legacy Edition ontem de madrugada e encontro esse escrito no seu blog! Maravilhoso comentário! Jeff é uma inspiração sempre! Adorei! Voltarei mais vezes! Bjs.
Afixado por: Olga em janeiro 20, 2005 07:35 PM