A minha casa chegou na passada semana, com algum atraso, o número de Agosto da Ler. Com atraso, mas bem a tempo. Na capa, um título irresistível: "Satrapi -- uma voz do Irão". Lá dentro, uma entrevista notável, conduzida por Inês de Medeiros (!) a uma grande mulher iraniana, Marjane Satrapi.
Com extraordinária lucidez, Satrapi conta porque deixou o seu país com 14 anos de idade: a decepção de reencontrar a ditadura, depois da esperança criada com a queda do Xá. Emigrada para a Áustria, pensava encontrar aí um mundo mais justo e solidário. Encontrou o racismo e o desprezo sempre que dizia ser iraniana. Depois de ter chegado à miséria absoluta, viajou para França, onde a publicação de uma banda desenhada, intitulada "Persépolis" -- e que é, basicamente, a sua própria história -- a tornou conhecida e finalmente respeitada.
Há quatro anos que Satrapi não vai ao seu país. Sem nada ter feito para isso -- a não ser procurar uma vida mais justa e publicar uma banda desenhada -- tornou-se num dos símbolos da resistência no exterior. Mas fala sem papas na língua, e a própria civilização ocidental, pretensiosa da sua democracia, se vê despida pelo seu olhar frontal. Por isso diz que não existe democracia, considera indecentes os três minutos de silêncio que o mundo dedicou às vítimas do 11 de Novembro e pede a nós, ocidentais, que não olhemos todos os árabes como se carregassem bombas prontas a explodir.
Satrapi defende a coragem acima de tudo; como ela diz, não há nada pior para a humanidade que um humano com medo.
Não há nada pior para a humanidade: aquele que usa o medo para governar. O problema não está naqueles que têm medo, o problema estará sempre naqueles que utilizam o medo para se justificarem no poder. O contrário é que é preciso: criar motivos racionais de esperança, razões positivas.