
O que é que nos atrai nos nossos movimentos, se não a curiosidade? E, por arrastamento, o inconformismo, a sede de mexer algo que está parado? Um pouco como as crianças, na descoberta do mundo à volta.
Os Selvagens também são assim. Sempre irrequietos, fugindo à mão do próprio criador. Alguns destes Selvagens é necessário semear em terras da Madeira e dos Açores. A crer pelas últimas eleições, falta por lá quem espreite para lá da cúpula que o rodeia. Por cá, no continente, também é um pouco assim, mas não tanto, por enquanto. Ainda há quem se mova, porque havia uma luz.
A meio da estrada, Rodin parou. Encostou o carro e saiu. O ar estava estranho, cheio de vozes desconhecidas. Rodin sentiu-se envolvido numa espécie de fumo, e subitamente foi como se sufocasse, não suportasse mais aquele lugar e o que em frente se desenhava.
Estava para voltar ao carro, disposto a dar meia volta e procurar a mulher fascinante da noite anterior, quando lhe pareceu ver, ao longe, na planície, um homem vestido de modo exuberante.
-- Um palhaço! -- quase gritou.
Alguém que o viu partir a correr achou que algo de horrível se tinha passado. Pararam alguns carros. Mas, ao longe já, Rodin corria sem se aperceber de nada mais. Havia um palhaço, ali, por detrás daquela cabana.
--Lizarede. Lizarede é o meu nome.
O rapaz olhou-o, descontraidamente, como se não se importasse com a sua presença ali. Acordara havia pouco, com a lentidão de quem nada mais tem a perder no mundo. A primeira coisa que fez foi puxar de um cigarro. Quando o acendeu já tinha a cabeça fora da janela, olhando com uma curiosidade infinita a rua deserta.
Ainda não avistara Lizarede quando murmurou:
-- Que terra triste! Ninguém para alegrar as ruas.
Só depois é que se virou e deparou com o velho, de pé, fitando-o com um ar assustado e plenamente hesitante.
O rapaz sorriu.
-- Afinal sempre há alguém neste cantinho do mundo. Viva! Que fazes aqui, quem és tu?
-- Não sou daqui.
-- Pois, claro que não. Aqui não há ninguém. Reparaste quando chegaste? Havia alguém à tua espera? Alguém que seguisse com atenção os teus passos? Alguém que perguntasse quem eras?
-- Não sei. Não entrei nas outras casas. Só nesta, porque havia uma luz.
-- Uma luz? Ah, sim.