Mais de um mês depois, reencontrei os Selvagens. Tanta ausência tem explicação: pouco tempo, alguma falta de ânimo, e uma verdadeira desilusão com o mundo em que vão crescendo os nossos filhos. Não é só a educação, é tudo, neste país falso, cada vez mais virtual, que nos faz pensar, e pensar, e ganhar vontade de fazer algo verdadeiramente radical. Valha-nos a literatura, e estes saltos ocasionais num universo onírico, onde mergulho, com gosto, cada vez que abro a gaveta.
São viagens ao passado; numa dessas viagens, descobri que tenho um montão de revistas que não poderei levar para a minha nova casa: uma colecção da "Ozono", que assinei com todo o gosto, grande entusiasmo e encanto, e que entretanto acabou, claro, exterminada como são todas as coisas boas e decentes neste país; e bastantes "Science & Vie", algumas delas já antigas. aglomerados de conhecimento que não tenho possibilidades de transportar comigo. Se alguém estiver interessado, avise.
Depois de muitos anos, havia qualquer coisa de esquisito no monte. Havia um homem. E um carro, grande, bonito, moderno. Daqueles que chamam logo a atenção.
Hector, que vivia em frente, acordou e logo olhou pela janela. Não se via ninguém. Mas ficara-lhe uma impressão incómoda de um vulto na noite anterior. E, subitamente, assustou-se. Pensou que poderia ser um ladrão. Alguém que ali penetrasse, sorrateiramente. Mas para levar o quê?
Intrigado, o velho saiu e, perante as redondezas sem ninguém, dirigiu-se para a casa. Avançou cautelosamente, com medo que de súbito lhe surgisse pela frente um qualquer desconhecido. Interrogava-se sobre o que faria, o que diria então. Não tinha desculpas para andar ali. Aquele lugar estava abandonado há muitos anos.
Empurrou a porta e não precisou de muita força para que ela se abrisse. Estava apenas encostada. Um descuido dos anos. Entrou, e logo lhe vieram à memória tempos antigos, coisas que ali tinham acontecido. Hector emocionou-se. Não se encontrava entre aquelas paredes há quase uma eternidade, e andar por ali era uma viagem ao passado, um perturbante folhear das suas memórias. Não resistiu, e avançou. Era uma casa grande como a eternidade.
Traz duas ou três da Ozono aqui para o je.
Afixado por: nproblemas em outubro 15, 2004 09:38 PMEntre selvagens. Uma selva, e não um bosque, com vista para o rio: No Bairro do Aleixo!
http://nobairrodoaleixo.blogspot.com
b.