Não gosto de velocidade na estrada. Sou contra. Mesmo. Esses são os selvagens de que não gosto. Muitas vezes, são criminosos. Mas, e isso acontece muito em literatura, às vezes os personagens escapam-nos. E nós não temos que gostar sempre deles, pois não?
Ali estava o carro, imóvel, fixando-o em ar de repreensão. Rodin esteve quase a pedir-lhe desculpa. Achou-o maravilhoso. Resplandecia como um diamante, os seus olhos não o largavam, quase haviam lágrimas naquelas pupilas metálicas, uma mágoa intensa pelo abandono a que fôra votado.
Arrependido de tudo, Rodin abriu respeitosamente a porta e entrou. Passou os dedos pelo volante, acariciou o couro. Rodou a chave e o carro estremeceu. Estavam reconciliados. Rodin saiu com ele a toda a velocidade, e a aldeia assustou-se.
Os personagens escapam-nos. É um problema. E escapam-nos porque sabemos quem somos mas raramente sabemos o que podemos vir a ser. Vamos sendo. Eles libertam-se de nós e vão, vão...até que um dia deixam de ser personagens.
Afixado por: antónio em setembro 10, 2004 10:07 PM