Como a literatura é um vício que não nos larga, aqui se inicia mais uma história. Os Selvagens. Porque a memória é uma coisa que perturba, é uma preocupação crescente nos dias de hoje, em que cada vez perdemos mais depressa os contactos com as nossas raízes. Corremos o risco de um dia não sabermos quem somos.
Noite escura, Rodin perdeu-se pelas redondezas. Atravessou com uma ousadia desconhecida os campos de trigo. Gostou de aspirar o ar fresco, pisar as ervas da planície, tomar finalmente conhecimento do silêncio profundo que este mundo pode conter. Com um misterioso sentimento de felicidade, sentou-se. Sentiu-se livre. Absolutamente livre. Como se nada existisse à sua volta, como se ele fosse um espectador privilegiado, um deus no alto de tudo. Era algo que não recordava de outros tempos.
Aliás, que guardava Rodin na sua memória? Nada. O seu passado fundia-se com as luzes da cidade.
-- Costumavas escrever. -- disse uma voz nas suas costas.
Voltou-se e viu uma mulher. Alta, esbelta, longos cabelos negros, provocação no olhar.
Afinal, não estava só. Ao seu lugar divino havia mais alguém capaz de chegar.
-- Não me lembro de escrever.
-- Como é possível?
-- Lembro-me de assinar coisas. Não me perguntes o quê.
-- Fazias os outros ler.
-- Lembro-me de escrever num computador. Lembro-me de conduzir um carro. Lembro-me de ver televisão.