abril 27, 2004

A ESTRADA - Todas eram páginas em branco

Para LER, é mesmo necessário letras impressas sobre o papel? Será?
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Não caminharam durante muito tempo. Depois da curva da estrada mais próxima, apareceu uma pequena aldeia, parada e silenciosa. Não havia ninguém junto às casas, e era como se já todos tivessem recolhido para passar a noite.
De facto, anoitecia, o céu estava mergulhado num oceano de fogo e cinza. Eles entraram na primeira casa do lado direito, para uma sala modesta, com um sofá comprido, uma mesa e uma lareira pequena, e ela falou-lhes pela primeira vez, com uma voz quente e suave, dizendo-lhes que se sentassem.
Assim o fizeram, como se estivessem enfeitiçados.
Ela desapareceu num quarto, e demorou-se uns dois minutos. Quando voltou, trazia dois livros na mão, e ofereceu um a Alcaluz e outro a Ster. Estupefactos, eles ficaram com os olhos postos nas capas castanhas, sem letras nem desenhos.
-- Quero que leiam. Será o primeiro passo para se formarem como pessoas. -- disse ela, e nenhum deles compreendeu. Era como se ela falasse uma outra língua.
Mas Alcaluz abriu o livro. Uma página em branco, a seguir outra página em branco, e depois mais outra. Todas eram páginas em branco. O próprio Ster se surpreendeu com a ausência de palavras. Os dois enfeitiçados ficaram tão silenciosos como as páginas, mas nos seus pensamentos haviam tantos diálogos como naquele livro fascinante e misterioso.
Ela sorriu perante o espanto deles, e a seguir sentou-se, tranquila, divertida, trincando uma maçã. Ofereceu uma a cada um deles e disse-lhes:
-- Leiam. Não percam tempo. Que os dias passam e não esperam.
Levantou-se e foi à janela.
-- Vejam que já anoitece. Quantas páginas são capazes de ler até o dia nascer?

Publicado por Joaquim Semeano em abril 27, 2004 01:16 AM
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