abril 24, 2004

O MEU 25 DE ABRIL

Tinha 9 anos quando se deu o 25 de Abril. Vivia numa pequena aldeia do Ribatejo, e mal conhecia Lisboa. As grandes cidades e o mundo conhecia-os através da televisão, mas pouco. Que na aldeia havia poucas televisões, e até eram a preto e branco. Eu ficava no café a ver as séries de aventuras. Tinha uma vaga noção de que quando fosse grande teria que ir para a guerra. Porque todos os homens tinham que ir.
Com o 25 de Abril gerou-se a esperança. Talvez eu já não tivesse que ir para Angola ou Moçambique, como o meu pai. Talvez eu nem precisasse de ir para a tropa. Talvez a vida melhorasse, as pessoas passassem a ter direitos e a poderem conversar livremente umas com as outras.
Com o 25 de Abril, a minha aldeia mudou. Criou-se uma Associação para as pessoas conviverem, reunirem-se, conversarem, beberem café, verem cinema, praticarem desporto. A minha aldeia teve direito a saneamento básico, e em breve todos tínhamos água, luz e televisão em casa. Os meus 9, 10, 11 anos foram um período para abrir os horizontes. Para crescer, á medida que o mundo crescia à minha volta. Para perceber o que gerara o 25 de Abril, e também o que ele poderia gerar a seguir.
Em breve, e depois daqueles primeiros anos de entusiasmo, comecei a desiludir-me. Nem todos os sonhos de Abril iriam ser cumpridos. E fui crescendo com essa noção, cada vez mais forte, que o fogo da revolução se extinguia rapidamente, a caminho das cinzas. Trinta anos depois, só restam as cinzas. Estas, que nos alimentam a memória. O 25 de Abril mudou as nossas vidas, mas hoje é sobretudo uma memória.
Não temos que ir para a guerra em Angola ou Moçambique, mas os nossos soldados têm que ir para o Iraque. Podemos conversar livremente, mas convém não afrontar o patrão. Temos televisão mas ela não tem qualidade. Temos água e luz mas sobrevivemos com empregos cada vez mais precários. E olhamos em frente e temos medo: que Segurança Social? Que protecção no trabalho? Que educação para os nossos filhos? Que saúde? Que cultura? Que mundo estamos a construir?

Publicado por Joaquim Semeano em abril 24, 2004 02:07 PM
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