março 31, 2004

SARAMAGO: ELE É GRANDE

saramago.jpg O acontecimento mais importante dos últimos tempos neste cinzento país foi o regresso de José Saramago, com o seu "Ensaio sobre a Lucidez" e as consequentes entrevistas em jornais, nas rádios e nas televisões. Não tive o privilégio de acompanhar todos estes acontecimentos, mas consegui apanhar a parte final da sua entrevista na RTP1 e deliciar-me com a forma personalizada como ele sempre conseguiu contrapôr as questões, desmontando as ideias preconcebidas a seu respeito que as perguntas encerravam. Uns dias depois, um debate na rádio sobre a sua ousadia em propôr o protesto através do voto em branco. Pelo meio, a espectacular entrevista ao "Diário de Notícias", de uma lucidez estonteante, acertando nos pontos mais negativos que marcam a nossa sociedade contemporânea.

Saramago é um dos melhores portugueses vivos. É um dos poucos escritores, pensadores, filósofos, que ainda se consegue fazer ouvir, embora, mesmo assim, raramente, e a propósito de um novo livro.
Permitam-me só citar aqui algumas das suas frases na entrevista ao "DN":

"O que me preocupa não são os jornalistas, os colunistas, mas os cidadãos que se conduzem como autómatos e têm ausente dentro de si um gosto pela crítica"

"Começar a uivar seria decidirmos em colectivo votar em branco para ver o que acontece"

"O ambiente de mediocridade em que vivemos é assustador"

E há mais. Mas é nesta conjuntura medíocre que sucedem coisas como o recente encerramento das rádios Luna e Vox. Duas vozes da diferença, com espaços para as minorias, deixaram de fazer-se ouvir. Portugal ficou mais pobre. Cada vez mais igual e mais burro. Por isso é mesmo necessário ouvir-se Saramago, pensar no que ele diz, agir de alguma forma.

Publicado por Joaquim Semeano em março 31, 2004 01:51 AM
Comentários