março 18, 2004

A ESTRADA - Sentiu-se só no mundo

O que faz um homem sem referências no mundo? Estando perdido, para onde caminha? Eis o que acontece com o nosso herói, Alcaluz.

A seguir, não veio ninguém. Cansado, Alcaluz esperou que as coisas acontecessem. Mas nada. A estrada perdia-se para os dois lados, sonolentamente.
Sentiu-se só no mundo. Pensou que alguma coisa acontecera. Algo de terrível. De novo voltou a sentir medo. Um sentimento estranho. Uma angústia apertando-lhe o pensamento, sufocando-lhe os movimentos.
-- Vou voltar. -- decidiu, e pôs-se ao caminho.
Achou que o café ficara no sentido inverso ao seguido pelo velho. Assim, caminhou nessa direcção, esperando ver, a todo o momento, surgir a casa acolhedora, o único sítio de que se lembrava com exactidão. As cadeiras, a mesa,o balcão, o homem e a mulher.
Mais uma vez concluiu que caminhava sem sentido. Andou tanto que ao entardecer as pernas se recusavam a avançar. Pelas suas contas, já há muito que deveria ter passado pelo café. Estava furioso. Não compreendia o que lhe estava a suceder. Nada daquilo podia ser verdade. Naquele mundo haviam certamente mais coisas. Não apenas um café, dois amantes, e uma estrada que nunca acaba.
Parado, no meio do caminho cinzento, viu a noite cair sobre ele. Um manto frio, gelado, cruel. Por cima, um céu estrelado e zombeteiro. Ao redor, o silêncio. E um grito súbito, de alguém, de alguém que não dois amantes, um pássaro ou um velho de bicicleta. Então, Alcaluz correu.

Publicado por Joaquim Semeano em março 18, 2004 10:53 AM
Comentários