março 17, 2004

A ESTRADA -- Primeiro passou um velho

Vejamos, de novo, onde se encontra o nosso herói Alcaluz. O nosso mundo actual está tão perdido quanto ele. Irá a algum lado se seguir um velho de bicicleta?

Primeiro passou um velho, em cima de uma bicicleta. Vinha pobremente vestido, as calças rotas, um colete a desfazer-se, um chapéu enorme a tapar-lhe os olhos tristes. Pedalava devagar, muito devagar, e Alcaluz ficou durante muito tempo à espera que ele chegasse ali, àquele sítio, para lhe perguntar aonde se dirigia.
O velho, porém, nem parou. Continuou a pedalar no seu ritmo lento, arrancado das últimas forças. Alcaluz gritou-lhe e ele não ouviu. A pouco e pouco começou a afastar-se, e Alcaluz teve vontade de ir com ele. Correu e depressa o alcançou. O velho parecia não dar por nada. O chapéu tapava-lhe os olhos, e estes fixavam a estrada alaranjada, que prosseguia, inalterável, através da planície enorme.
Alcaluz foi andando ao lado dele, acompanhando facilmente o ritmo da bicicleta, mas depois de meia hora assim começou a sentir-se cansado. O sol, entretanto, também subira e tornara mais forte o seu abraço. Ofegando, suando bastante, achou melhor parar um pouco, descansando à sombra de uma àrvore na beira do caminho.
-- Eih! Espere um pouco! -- gritou para o velho.
O outro, imperturbável, como se não fosse daquele mundo, prosseguiu caminho, sempre no mesmo ritmo, pedalada após pedalada, lenta e pacientemente.
-- Que estranho... -- achou Alcaluz, mas ficou ali, sentado, a ver o velho afastar-se.

Publicado por Joaquim Semeano em março 17, 2004 01:08 AM
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