março 14, 2004

A ESTRADA - Algo vivia para lá dela

Ainda Vitomir. Um assombro de cores. lamp.jpg Há algo de profundamente espiritual nestes traços. Colam-se fortemente à história de Alcaluz.

Alcaluz rodou a maçaneta da porta, e sabia que algo vivia para lá dela. Tinha que ser, ou não havia mais nada no mundo. Até à berma da estrada corria uma sebe de arbustos ainda molhados da noite. E no final, para lá deles, estavam os corpos exaustos, despidos de tudo o que até ali os sufocara. A mulher e o homem haviam deixado apenas a sua presença. Os seus espíritos navegavam por qualquer sítio longínquo, e Alcaluz admirou-lhes o abraço de raiva, os dedos entrelaçados, a sugestão de um sorriso no vago abrir dos lábios.
Sentou-se a olhá-los e teve inveja. Gostava de sentir aquilo, de deixar o seu espírito ir até onde estavam os deles. Via, por aquele quadro, que eles eram felizes. Nada mais podiam desejar. Aquilo era a perfeição. Naquele momento, desejou fortemente estar assim com alguém, mas deu-se conta de que aquelas eram as únicas pessoas que conhecia. À volta nada mais. As ervas, o café abandonado, a estrada que ali parecia terminar. E os corpos adormecidos, prazenteiramente, como se fossem o sonho em si mesmo.

Publicado por Joaquim Semeano em março 14, 2004 02:00 AM
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