John Cage é um génio, mas anda a gozar com os pseudo-intelectuais que proliferam no mundo da cultura. Como é possível dizer que estamos perante um obra musical histórica, como já ouvi referir a propósito daqueles quatro minutos de silêncio que Cage compôs (?)? Como é possível não desatar às gargalhadas imaginando uma pomposa sala de concertos, os seus emproados espectadores e uma orquesta preparada para executar (?) quatro minutos de silêncio?
Ponto prévio: gosto muito de John Cage. Tenho uma obra dele com a qual me delicio ocasionalmente. O silêncio já aí é uma característica de Cage. Ele sabe jogar com ele. Como ninguém, combina o silêncio com a música. Porque só existe obra musical se as duas coisas se entrelaçarem. Aí, sim, há génio. E Cage é, indubitavelmente, um génio dos nossos tempos.
Mas os génios têm destas coisas. Como João César Monteiro na sua "Branca de Neve", e alguns pintores modernos que dum risco simples numa tela em branco fazem (antes, desfazem) uma obra de arte.
A arte contemporânea desafia os limites, e às vezes ultrapassa-os, deixando então de ser arte. Porque arte é criação. E criar é levantar alguma coisa do nada, sendo esse nada o silêncio, uma tela vazia ou uma folha em branco. Se o José Saramago, um génio da literatura, apresentasse (sim, não posso dizer "escrevesse"...) um livro com as folhas em branco, estaríamos perante um marco na história da literatura? Claro que não; estaríamos, talvez, num momento de alguma senilidade do artista.
Por isso, não venham falar de uma obra histórica de John Cage. Essas, ele já fez. Esta de agora, este silêncio, significa que ou ele está a gozar com todos nós, ou então endoideceu.
Publicado por Joaquim Semeano em janeiro 18, 2004 10:16 PM
gostava de inventar...palavras
inventos são...versos
poemas que eu e tu lês
todos nós os consumimos
poucos recordam quem os fez
linhas, curvas, rabiscos
uma descrição a acompanhar
três anos para uma patente
montes de dinheiro a gastar.
fernando nogueira gonçalves www.invento.web.pt
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