A história do peixinho vermelho, que escrevi há muitos anos, quando começava já a entender a ironia do mundo que me rodeava, tem muito a ver com a nossa civilização ocidental. Tem a ver com a forma como olhamos os povos que são diferentes de nós, e fala de como gostávamos de os encerrar num aquário para observarmos distraidamente como vivem. Mais que isso, não.
Reencontrei a história hà poucos dias, nuns papéis antigos, e achei que ficava bem neste Bosque.
O peixinho vermelho olhou as pessoas à sua volta e não entendeu. Passavam por ele com olhares estranhos e misteriosos que ele não conseguia compreender.
O peixinho vermelho ainda esteve para lhes perguntar:
-- O que querem de mim?
Mas, depois, contêve-se, e nada lhes perguntou. Continuou a nadar calma e serenamente.
A determinada altura escondeu-se atrás de umas plantas a ver se os surpreendia nas suas conversas. No entanto, aquela gente tinha uma linguagem estranha e cantava de um modo muito diferente daquela a que estava habituado.
Minutos depois, o peixinho estava nervoso.
-- Eles nunca mais deixam de passar por aqui e de olhar para mim! -- gritou, e a água encheu-se de bolhas e as pessoas que viam mais e mais se entusiasmaram.
Nesta altura, o peixinho vermelho já estava zangado com todos eles e, à medida que os minutos iam passando, mais e mais os odiava.
-- Que estúpidos são! -- disse, e a àgua voltou a encher-se de bolhas.
Uma das pessoas deu um grande grito e desta vez disse, nítidamente numa língua incrivelmente compreensível para o peixinho:
-- Ai, que bonito que ele é!
O peixinho vermelho surpreendeu-se, e pensou que estavam a gozar com ele. Minutos depois, o peixinho vermelho morreu.