janeiro 10, 2004

O PEIXINHO VERMELHO

A história do peixinho vermelho, que escrevi há muitos anos, quando começava já a entender a ironia do mundo que me rodeava, tem muito a ver com a nossa civilização ocidental. Tem a ver com a forma como olhamos os povos que são diferentes de nós, e fala de como gostávamos de os encerrar num aquário para observarmos distraidamente como vivem. Mais que isso, não.

Reencontrei a história hà poucos dias, nuns papéis antigos, e achei que ficava bem neste Bosque.

O  peixinho  vermelho  olhou as pessoas à sua  volta  e  não entendeu. Passavam  por ele com olhares estranhos e  misteriosos que ele não conseguia compreender.
O peixinho vermelho ainda esteve para lhes perguntar:
-- O que querem de mim?
Mas,  depois, contêve-se, e nada lhes perguntou. Continuou a nadar calma e serenamente.
A determinada altura escondeu-se atrás de umas plantas a ver se os surpreendia nas suas conversas. No  entanto,  aquela  gente tinha uma linguagem  estranha e cantava   de  um  modo  muito  diferente  daquela  a  que  estava habituado.
Minutos depois, o peixinho estava nervoso.
-- Eles nunca mais deixam de passar por aqui e de olhar para mim!  -- gritou,  e  a água encheu-se de bolhas e as pessoas  que viam mais e mais se entusiasmaram.
Nesta  altura,  o  peixinho vermelho já estava  zangado  com todos eles e, à medida que os minutos iam passando,  mais e mais os odiava.
-- Que estúpidos são!  -- disse, e a àgua voltou a encher-se de bolhas.
Uma  das  pessoas  deu um grande grito e  desta  vez  disse, nítidamente  numa  língua  incrivelmente  compreensível  para   o peixinho:
-- Ai, que bonito que ele é!
O  peixinho vermelho surpreendeu-se,  e pensou que estavam a gozar com ele. Minutos depois, o peixinho vermelho morreu.

Publicado por Joaquim Semeano em janeiro 10, 2004 12:41 AM
Comentários