janeiro 07, 2004

O GATO E A GALINHA (uma fábula moderna)

Enquanto lá fora se discutem coisas tão importantes como a irritação do nosso reisinho porque os jornalistas dão notícias, opto por fechar a porta do Bosque e encontrar a salvação no velho non-sense.

Eis uma fábula moderna, para que pensemos no passado, no presente, e na lição que é sempre o confronto entre o forte e o fraco. Ups! Alguém percebeu alguma coisa?

Quando tudo recomeçou,  o vento passou por mim como se fosse uma pessoa apressada.  Corri atrás dele e segurei-o à entrada  do bar. Ele olhou-me, semicerrando os olhos como um velho cow-boy.
-- O que queres? -- perguntou, e a voz que lhe veio do peito era  dura como metal.  Mas havia qualquer coisa de terno nos seus olhos azuis.
-- Vamos entrar. Paga-me um copo.
Esta mensagem pareceu ter sido do agrado do velho. Sorriu e, pondo-me a mão no braço direito, puxou-me para dentro.
Sentámo-nos a um canto do bar,  eu e o vento.  A sala estava envolvida numa semi-obscuridade, transmitida pela luz que entrava timidamente  pela única janela aberta.  Reinava ali  um  silêncio sepulcral, quase assustador. Um velho coxo, apoiado numa bengala, veio perguntar-nos o que queríamos,  e o meu companheiro teve uma resposta maravilhosa:
-- Uma garrafa de passado, por favor.
-- Concerteza. -- respondeu o outro, sem qualquer hesitação.
Lá  dentro,  alguém  deixou caír um prato,  e ouviram-se  os estilhaços.  E, no minuto seguinte, entrou um rapaz, dos seus dez anos, correndo esbaforido atrás de uma galinha.
-- Anda cá, maldita! Não me foges mais! Ah, ah!
Havia  na  sua  expressão uma certa  e  invulgar  crueldade. Agarrou  o animal por uma asa e,  indiferente aos seus gritos  de dor, arrastou-o para a rua e desapareceu.
O  meu companheiro,  o velho vento,  olhava tudo com  um  ar misterioso,  como  quem pensa em algo mais,  muito para lá  da realidade.   Nos  seus  ouvidos,  tocava  certamente  uma  música estranha.
Olhando-o, relativamente encantado, deixei-me fascinar, desejando  ouvir  a  mesma música,  passear um pouco  nas  mesmas paisagens em que corriam os seus olhos.
Quando o homem coxo e apoiado na bengala trouxe a garrafa de passado,  o vento despertou de novo. 
Foi com gestos delicados e impressionantemente  silenciosos  que  pegou nela e  encheu  dois copos.
-- Bebe com cuidado. -- disse-me.
Eu sorri:
-- Estou habituado. Não há problema.
Um  gato que dormia em cima do balcão acordou de  repente  e saltou  para  cima da nossa mesa.  O vento afagou o animal  muito peludo e novamente pareceu submergido em estranhos pensamentos.
-- Para onde vais agora?  -- perguntou-me,  ao fim de  cinco minutos em silêncio.
-- Quando sair por aquela porta,  vou voltar à minha aldeia. -- respondi-lhe,  e  fiquei surpreendido com a certeza do meu tom de voz. Aquela era uma decisão que eu ainda não tinha tomado.
-- E  sabes  o  caminho?   -- perguntou-me  ele   novamente, olhando-me  fixamente,  como  o professor que interroga  o  aluno cheio de incertezas.
-- Sei. É por aquela porta...
Na  verdade,  eu não sabia.  De modo nenhum.  À volta do bar corria uma infinidade de caminhos,  e ao longe muitas  montanhas, todas elas iguais. Na verdade, eu estava relativamente perdido.
Então  o  vento mostrou-me o gato que se rebolava  entre  as suas mãoos com indiscutível prazer.
-- Ele vai fugir. Segue-o, não o percas nunca.
Ao ouvir aquelas palavras, ri às gargalhadas.
-- Um gato?  Porque vou eu correr atrás de um gato? Não. Vou ficar  por aqui.  Hoje de manhã recebi uma carta.  Dela.  Só  ela conhece o caminho.
-- Dela? E que diz?
-- Para  esperar  no  bar.   Se  fôr  preciso,   espera  uma eternidade -- estas foram as suas últimas palavras. Nunca mais as esqueci. E este é um bom lugar para esperar até à eternidade. Uma conversa  com  o  vento,  uma garrafa de passado,  um  gato  para acariciar.
-- E o mundo à tua volta?  Não te diz nada? Porque te portas assim?  Tu não és um vento qualquer. És um homem. Um homem real, nascido de uma mulher,  não de uma fantasia qualquer. Há coisas a fazer.
E a perseguir. Um gato, por exemplo.
-- Depois. Depois de ela vir.
-- Até à eternidade?
-- Até à eternidade.
Ele calou-se, mas o silêncio não durou muitos mais segundos. Do  lado  de  lá  do  balcão,  o velho  coxo  desatou  a  rir às gargalhadas. Ria com um gosto tremendo, com o rosto cada vez mais vermelho  e  o  corpo  magro tremendo-lhe  como  se  atacado  por convulsões  mortais.  Quando ele parou,  o  vento  perguntou-lhe, também com um rosto sorridente:
-- Tu sabes do que eu falo,  não é verdade?  Há quanto tempo esperas, velho?
-- Há uma eternidade!
E depois foi de novo atacado pelo riso,  de tal modo que com os  braços fez cair dois copos e uma garrafa que estavam em  cima do  balcão.  Novamente os estilhaços encheram o silêncio  daquele entardecer,  e  a eles só sucedeu um grito revoltado do gato  nas mãos do vento. O velho largou-o e o animal escapou-se pela porta, sempre a miar de um modo angustiado.
Ao ver aquilo,  continuei parado, disposto a estar ali até à eternidade.   Mas,  logo  depois, ouvimos  claramente  um  grito horrível  na  rua,  como se uma  mulher  sofresse  horrivelmente.
Precipitámo-nos  para  a  porta  e vimos a galinha  de  há  pouco agonizar na boca da fera, perante o desespero do rapaz que ao bar a fôra buscar. Incapaz de qualquer acção, a pobre criança olhava, de mãos na cabeça, o horrível estraçalhar.
Tive  pena e aproximei-me.  O rapaz estava a  chorar,  e  eu segurei-lhe nos braços e levantei-o, dizendo-lhe:
-- Vem. Vou levar-te a casa. Onde moras?
Ele  apontou para longe,  para lá das montanhas.  Olhei para trás  e  já não vi o velho vento. 
Certamente sorria para  o  seu interior,  sentado à mesa do bar. Anoitecia, mas estava agradável e pus-me ao caminho com o rapaz, que continuava a chorar.
-- É por aqui? -- perguntei-lhe.
Acenou que sim.  Tinha um rosto engraçado,  marcado por  uns olhos escuros pequenos e muito irrequietos.
Caminhou no maior dos silêncios, e só ao fim de dez minutos, quando já penetráramos nas montanhas e o escuro da noite nos envolvia, é que se dignou olhar para mim e sorrir de um modo simpático.
-- Chamo-me Dip. E tu? -- perguntou.
-- Chuv.
-- É um nome engraçado.  É como o meu! Sabes como se chama a minha avó?
-- Não...
-- Aleg!
-- Aleg? Aleg?
-- É bonito, não é? Já conheceste alguém com um nome assim?
-- Não, e é muito estranho. E a tua mãe, como se chama?
-- Não  tenho mãe,  nem pai.  Partiram para longe,  há muito tempo.  Sei  que  vão voltar,  um dia.  A minha avó  diz-me  para esperar por eles, nem que seja até à eternidade.

Publicado por Joaquim Semeano em janeiro 7, 2004 02:17 AM
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