Enquanto lá fora se discutem coisas tão importantes como a irritação do nosso reisinho porque os jornalistas dão notícias, opto por fechar a porta do Bosque e encontrar a salvação no velho non-sense.
Eis uma fábula moderna, para que pensemos no passado, no presente, e na lição que é sempre o confronto entre o forte e o fraco. Ups! Alguém percebeu alguma coisa?
Quando tudo recomeçou, o vento passou por mim como se fosse uma pessoa apressada. Corri atrás dele e segurei-o à entrada do bar. Ele olhou-me, semicerrando os olhos como um velho cow-boy.
-- O que queres? -- perguntou, e a voz que lhe veio do peito era dura como metal. Mas havia qualquer coisa de terno nos seus olhos azuis.
-- Vamos entrar. Paga-me um copo.
Esta mensagem pareceu ter sido do agrado do velho. Sorriu e, pondo-me a mão no braço direito, puxou-me para dentro.
Sentámo-nos a um canto do bar, eu e o vento. A sala estava envolvida numa semi-obscuridade, transmitida pela luz que entrava timidamente pela única janela aberta. Reinava ali um silêncio sepulcral, quase assustador. Um velho coxo, apoiado numa bengala, veio perguntar-nos o que queríamos, e o meu companheiro teve uma resposta maravilhosa:
-- Uma garrafa de passado, por favor.
-- Concerteza. -- respondeu o outro, sem qualquer hesitação.
Lá dentro, alguém deixou caír um prato, e ouviram-se os estilhaços. E, no minuto seguinte, entrou um rapaz, dos seus dez anos, correndo esbaforido atrás de uma galinha.
-- Anda cá, maldita! Não me foges mais! Ah, ah!
Havia na sua expressão uma certa e invulgar crueldade. Agarrou o animal por uma asa e, indiferente aos seus gritos de dor, arrastou-o para a rua e desapareceu.
O meu companheiro, o velho vento, olhava tudo com um ar misterioso, como quem pensa em algo mais, muito para lá da realidade. Nos seus ouvidos, tocava certamente uma música estranha.
Olhando-o, relativamente encantado, deixei-me fascinar, desejando ouvir a mesma música, passear um pouco nas mesmas paisagens em que corriam os seus olhos.
Quando o homem coxo e apoiado na bengala trouxe a garrafa de passado, o vento despertou de novo.
Foi com gestos delicados e impressionantemente silenciosos que pegou nela e encheu dois copos.
-- Bebe com cuidado. -- disse-me.
Eu sorri:
-- Estou habituado. Não há problema.
Um gato que dormia em cima do balcão acordou de repente e saltou para cima da nossa mesa. O vento afagou o animal muito peludo e novamente pareceu submergido em estranhos pensamentos.
-- Para onde vais agora? -- perguntou-me, ao fim de cinco minutos em silêncio.
-- Quando sair por aquela porta, vou voltar à minha aldeia. -- respondi-lhe, e fiquei surpreendido com a certeza do meu tom de voz. Aquela era uma decisão que eu ainda não tinha tomado.
-- E sabes o caminho? -- perguntou-me ele novamente, olhando-me fixamente, como o professor que interroga o aluno cheio de incertezas.
-- Sei. É por aquela porta...
Na verdade, eu não sabia. De modo nenhum. À volta do bar corria uma infinidade de caminhos, e ao longe muitas montanhas, todas elas iguais. Na verdade, eu estava relativamente perdido.
Então o vento mostrou-me o gato que se rebolava entre as suas mãoos com indiscutível prazer.
-- Ele vai fugir. Segue-o, não o percas nunca.
Ao ouvir aquelas palavras, ri às gargalhadas.
-- Um gato? Porque vou eu correr atrás de um gato? Não. Vou ficar por aqui. Hoje de manhã recebi uma carta. Dela. Só ela conhece o caminho.
-- Dela? E que diz?
-- Para esperar no bar. Se fôr preciso, espera uma eternidade -- estas foram as suas últimas palavras. Nunca mais as esqueci. E este é um bom lugar para esperar até à eternidade. Uma conversa com o vento, uma garrafa de passado, um gato para acariciar.
-- E o mundo à tua volta? Não te diz nada? Porque te portas assim? Tu não és um vento qualquer. És um homem. Um homem real, nascido de uma mulher, não de uma fantasia qualquer. Há coisas a fazer.
E a perseguir. Um gato, por exemplo.
-- Depois. Depois de ela vir.
-- Até à eternidade?
-- Até à eternidade.
Ele calou-se, mas o silêncio não durou muitos mais segundos. Do lado de lá do balcão, o velho coxo desatou a rir às gargalhadas. Ria com um gosto tremendo, com o rosto cada vez mais vermelho e o corpo magro tremendo-lhe como se atacado por convulsões mortais. Quando ele parou, o vento perguntou-lhe, também com um rosto sorridente:
-- Tu sabes do que eu falo, não é verdade? Há quanto tempo esperas, velho?
-- Há uma eternidade!
E depois foi de novo atacado pelo riso, de tal modo que com os braços fez cair dois copos e uma garrafa que estavam em cima do balcão. Novamente os estilhaços encheram o silêncio daquele entardecer, e a eles só sucedeu um grito revoltado do gato nas mãos do vento. O velho largou-o e o animal escapou-se pela porta, sempre a miar de um modo angustiado.
Ao ver aquilo, continuei parado, disposto a estar ali até à eternidade. Mas, logo depois, ouvimos claramente um grito horrível na rua, como se uma mulher sofresse horrivelmente.
Precipitámo-nos para a porta e vimos a galinha de há pouco agonizar na boca da fera, perante o desespero do rapaz que ao bar a fôra buscar. Incapaz de qualquer acção, a pobre criança olhava, de mãos na cabeça, o horrível estraçalhar.
Tive pena e aproximei-me. O rapaz estava a chorar, e eu segurei-lhe nos braços e levantei-o, dizendo-lhe:
-- Vem. Vou levar-te a casa. Onde moras?
Ele apontou para longe, para lá das montanhas. Olhei para trás e já não vi o velho vento.
Certamente sorria para o seu interior, sentado à mesa do bar. Anoitecia, mas estava agradável e pus-me ao caminho com o rapaz, que continuava a chorar.
-- É por aqui? -- perguntei-lhe.
Acenou que sim. Tinha um rosto engraçado, marcado por uns olhos escuros pequenos e muito irrequietos.
Caminhou no maior dos silêncios, e só ao fim de dez minutos, quando já penetráramos nas montanhas e o escuro da noite nos envolvia, é que se dignou olhar para mim e sorrir de um modo simpático.
-- Chamo-me Dip. E tu? -- perguntou.
-- Chuv.
-- É um nome engraçado. É como o meu! Sabes como se chama a minha avó?
-- Não...
-- Aleg!
-- Aleg? Aleg?
-- É bonito, não é? Já conheceste alguém com um nome assim?
-- Não, e é muito estranho. E a tua mãe, como se chama?
-- Não tenho mãe, nem pai. Partiram para longe, há muito tempo. Sei que vão voltar, um dia. A minha avó diz-me para esperar por eles, nem que seja até à eternidade.