dezembro 11, 2003

O Estado sem Dom Sebastião

Vivemos num país onde o Estado deixou de existir. Eles estão lá, os homens de Estado, mas é só um emprego. Emprego à parte, eles perfilham a todo o momento uma política de privatização, vendendo toda e qualquer capacidade de intervenção na vida do país.

Tem sido assim ao longo dos tempos. Talvez por isso este seja o país que espera eternamente pelo idiota do D. Sebastião. Espera-se que do nevoeiro venha uma salvação, mas do nevoeiro o que vem é sempre um mistério.

Estas amargas reflexões inspiraram-me, em tempos, a seguinte história...

Surgido das brumas,  dos nevoeiros,  da confusão que emergia por trás dos montes,  apareceu um homem bem vestido,  que eu nunca vira.  Caminhava de um modo majestoso,  como se fosse um rei.  Olhava como se estivesse no ponto mais alto do mundo e toda a sabedoria estivesse sob o seu controlo.
As  pessoas que o viram,  entre as quais este pobre escriba, sentiram-se arredadas perante tal grandiosidade, e toda a  gente abriu  alas  para  que ele passasse  à  vontade,  aquele  sorriso soberano  para  a  esquerda e  para  a  direita,  aqueles  olhos perspicazes que viam mais que todos nós.
E  pronto.  Ele  passou,  tomou conta do seu espaço,  e  nós estivemos  quase  a fazer uma festa.  Mas  não.  Rapidamente  nos convencemos  de que dava muito trabalho.  Ele,  do fundo  da  sua sabedoria, encarregar-se-ia de tal.
A  seguir,  pensámos  que  o  melhor  era  mesmo  voltar  ao trabalho, que  o  tempo  urge  e  não  perdoa.  Mas  também  nos convencemos de que era cansativo. Ele, com o seu olhar poderoso e magnânime, haveria de arranjar uma solução.
Satisfeitos,  mais felizes que nunca,  andámos devagar, cada um  para  seu  lado,  um  pouco ao acaso,  mas ao  acaso  de  uma felicidade indiscutível.  A única coisa que,  tínhamos a certeza, passaria  ao lado daquele conquistador que para nos salvar  tinha emergido do nevoeiro.
Mas um dia o nevoeiro desapareceu.  Fugiu, como se fosse uma gazela,  escondendo-se  numa  gruta algures no meio  das  grandes montanhas.  Os  homens ficaram preocupados,  pois nunca tal tinha acontecido. Durante algum tempo ficaram a mirar o local para onde ele tinhá seguido.  Pensaram em cercar a gruta,  obrigá-lo a saír de lá com uma enxurrada de água.
Mas  não  se faz isso ao nevoeiro.  O bom-senso  falou  mais alto,  e os homens daquele sítio começaram a habituar-se a  viver de  uma  maneira  diferente,  olhando na poeira dos  campos  algo parecido  com o saudoso nevoeiro.  Nessas alturas os  seus  olhos enchiam-se de lágrimas, era a saudade que apertava.
Depois,  tinham  que limpar bem os olhos,  ou passavam a ver muito pior do que antes.  Era o homem a transformar-se,  mas  não podia transformar-se assim tanto. Por isso,  um dia reuniram-se e tomaram uma decisão para que passassem a viver melhor:  todas as semanas, um voluntário partia à procura do nevoeiro.  O que primeiro voltasse com ele, emergido nele, era o salvador.
Os candidatos passaram a ser muitos, mas em breve  aquele sítio ficou sem homens,  e do salvador nem  sinais.
Ficou  um sítio deserto,  só com a poeira dos campos,  e  ninguém para chorar com saudades.

Publicado por Joaquim Semeano em dezembro 11, 2003 09:43 PM
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