Vivemos num país onde o Estado deixou de existir. Eles estão lá, os homens de Estado, mas é só um emprego. Emprego à parte, eles perfilham a todo o momento uma política de privatização, vendendo toda e qualquer capacidade de intervenção na vida do país.
Tem sido assim ao longo dos tempos. Talvez por isso este seja o país que espera eternamente pelo idiota do D. Sebastião. Espera-se que do nevoeiro venha uma salvação, mas do nevoeiro o que vem é sempre um mistério.
Estas amargas reflexões inspiraram-me, em tempos, a seguinte história...
Surgido das brumas, dos nevoeiros, da confusão que emergia por trás dos montes, apareceu um homem bem vestido, que eu nunca vira. Caminhava de um modo majestoso, como se fosse um rei. Olhava como se estivesse no ponto mais alto do mundo e toda a sabedoria estivesse sob o seu controlo.
As pessoas que o viram, entre as quais este pobre escriba, sentiram-se arredadas perante tal grandiosidade, e toda a gente abriu alas para que ele passasse à vontade, aquele sorriso soberano para a esquerda e para a direita, aqueles olhos perspicazes que viam mais que todos nós.
E pronto. Ele passou, tomou conta do seu espaço, e nós estivemos quase a fazer uma festa. Mas não. Rapidamente nos convencemos de que dava muito trabalho. Ele, do fundo da sua sabedoria, encarregar-se-ia de tal.
A seguir, pensámos que o melhor era mesmo voltar ao trabalho, que o tempo urge e não perdoa. Mas também nos convencemos de que era cansativo. Ele, com o seu olhar poderoso e magnânime, haveria de arranjar uma solução.
Satisfeitos, mais felizes que nunca, andámos devagar, cada um para seu lado, um pouco ao acaso, mas ao acaso de uma felicidade indiscutível. A única coisa que, tínhamos a certeza, passaria ao lado daquele conquistador que para nos salvar tinha emergido do nevoeiro.
Mas um dia o nevoeiro desapareceu. Fugiu, como se fosse uma gazela, escondendo-se numa gruta algures no meio das grandes montanhas. Os homens ficaram preocupados, pois nunca tal tinha acontecido. Durante algum tempo ficaram a mirar o local para onde ele tinhá seguido. Pensaram em cercar a gruta, obrigá-lo a saír de lá com uma enxurrada de água.
Mas não se faz isso ao nevoeiro. O bom-senso falou mais alto, e os homens daquele sítio começaram a habituar-se a viver de uma maneira diferente, olhando na poeira dos campos algo parecido com o saudoso nevoeiro. Nessas alturas os seus olhos enchiam-se de lágrimas, era a saudade que apertava.
Depois, tinham que limpar bem os olhos, ou passavam a ver muito pior do que antes. Era o homem a transformar-se, mas não podia transformar-se assim tanto. Por isso, um dia reuniram-se e tomaram uma decisão para que passassem a viver melhor: todas as semanas, um voluntário partia à procura do nevoeiro. O que primeiro voltasse com ele, emergido nele, era o salvador.
Os candidatos passaram a ser muitos, mas em breve aquele sítio ficou sem homens, e do salvador nem sinais.
Ficou um sítio deserto, só com a poeira dos campos, e ninguém para chorar com saudades.