dezembro 04, 2003

Uma história de Natal

Quando chega este período do ano, as pessoas da cidade começam a preparar-se para o regresso, por alguns dias, à terra natal. Passar a quadra com os velhos pais, os velhos amigos, reencontrar as coisas antigas. Lá chegamos com as nossas prendas da civilização. Mas raramente meditamos a fundo sobre o que nos leva lá. É por isso que um destes dias resgatei uma historinha antiga do fundo das minhas gavetas...


Num  dos  dias  em que me assaltou a nostalgia  do  passado, pensei  em ir até à velha vila,  onde tudo se  passara.  Não  era longe,  e  se  pegasse no carro estaria lá em pouco mais de  meia hora.  Relembrava  o caminho,  acidentado,  com muitas  curvas  e àrvores  altas  mesmo  à beira  da  estrada.  Perigoso. 
Naqueles troncos  escuros e assustadores durante muitos minutos se  haviam perdido os meus olhos,  enquanto o espírito vagueava, apaixonado, pela velha vila onde tudo ficara. Tudo  ou  quase  tudo.  Um resto de mim  sobrevivia  a  esse passado  fascinante,  a esses episódios inesquecíveis que  tinham moldado com precisão este coração romântico e sonhador.  Recordei as escadas,  longas, terrivelmente longas, como se só parassem no céu.  Lá no cimo estava tudo,  ou quase tudo o que eu não  queria deixar.  No cimo estava a felicidade, a concretização dos sonhos, das mais mirabolantes imaginações.
Ao  lado  da escadaria,  entre os arbustos  verdes  escuros, morava  o  castelo,  velho  e encantador.  Ali  havia  uma  outra escadaria  para o passado,  uma dimensão diferente onde eu também me chegara a perder.  E em baixo,  lá muito em baixo,  a vila, as suas ruas estreitas, complicadas, quase labirínticas. A vila onde ficara um pouco de mim.
Pensei  então que o melhor era não ir.  Não podia lá  deixar mais um pouco de mim. Não voltaria sem resgatar o que lá perdera. E  este  era um resgate quase impossível,  e eu não  sabia  mesmo se queria resgatar esse bocado de mim. Fiquei onde estava.

Publicado por Joaquim Semeano em dezembro 4, 2003 04:17 PM
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