Quando chega este período do ano, as pessoas da cidade começam a preparar-se para o regresso, por alguns dias, à terra natal. Passar a quadra com os velhos pais, os velhos amigos, reencontrar as coisas antigas. Lá chegamos com as nossas prendas da civilização. Mas raramente meditamos a fundo sobre o que nos leva lá. É por isso que um destes dias resgatei uma historinha antiga do fundo das minhas gavetas...
Num dos dias em que me assaltou a nostalgia do passado, pensei em ir até à velha vila, onde tudo se passara. Não era longe, e se pegasse no carro estaria lá em pouco mais de meia hora. Relembrava o caminho, acidentado, com muitas curvas e àrvores altas mesmo à beira da estrada. Perigoso.
Naqueles troncos escuros e assustadores durante muitos minutos se haviam perdido os meus olhos, enquanto o espírito vagueava, apaixonado, pela velha vila onde tudo ficara. Tudo ou quase tudo. Um resto de mim sobrevivia a esse passado fascinante, a esses episódios inesquecíveis que tinham moldado com precisão este coração romântico e sonhador. Recordei as escadas, longas, terrivelmente longas, como se só parassem no céu. Lá no cimo estava tudo, ou quase tudo o que eu não queria deixar. No cimo estava a felicidade, a concretização dos sonhos, das mais mirabolantes imaginações.
Ao lado da escadaria, entre os arbustos verdes escuros, morava o castelo, velho e encantador. Ali havia uma outra escadaria para o passado, uma dimensão diferente onde eu também me chegara a perder. E em baixo, lá muito em baixo, a vila, as suas ruas estreitas, complicadas, quase labirínticas. A vila onde ficara um pouco de mim.
Pensei então que o melhor era não ir. Não podia lá deixar mais um pouco de mim. Não voltaria sem resgatar o que lá perdera. E este era um resgate quase impossível, e eu não sabia mesmo se queria resgatar esse bocado de mim. Fiquei onde estava.