Alguém inventou o Dia sem Carros. Demagogia, da mais pura. Nos restantes dias do ano, o carro está sempre à frente dos peões. Porquê celebrar, então, o Dia sem Carros? Já agora, se distribuissem umas medalhas...
Era uma vez...
Um dia, na cidade, tentei apanhar um autocarro. Passavam todos muito depressa, e não era fácil. Mas, paciente, lá me meti na fila, atrás de umas dez pessoas que já esperavam alguma coisa. Presumi que era um autocarro, e alinhei. Não era fácil alinhar. O homem à minha frente estava sempre a mexer-se, ora para a direita ora para a esquerda. Espreitava constantemente, metendo a cabeça fora do alinhamento. De tal forma que pensei que o melhor seria cortar-lhe a cabeça. Estive tentado a isso, mas depois desisti ao pensar nas consequências. Até é melhor nem falar delas. Mas deixem-me acrescentar que em breve toda a fila estava muito mexida, cada um tentando alinhar com o parceiro da frente, e não conseguindo.
Era a fila maia revolucionária em que eu tinha estado, e fazia lembrar uma turma de alunos indisciplinados. E poucos minutos depois apanhámos o castigo: o autocarro veio e não parou, deixando-nos a todos desesperados.
Por isso, fui a pé. Caminhei, que é coisa que as pessoas de hoje fazem muito pouco. Tornei-me num exemplo. Enquanto subia a avenida, fui reparando que as pessoas paravam a olhar para mim, como se eu fosse despido. Mas não. Por acaso, estava muito bem vestido nesse dia. Fiquei intrigado e perguntei a uma senhora que tinha uns óculos enormes:
-- O que se passa? Porque olham assim para mim?
E ela, muito séria:
-- Não estamos a olhar para si, nem pense nisso! Estamos a olhar é para o homem que vai a subir a avenida. Sozinho, imagine-se!
-- O homem? Mas qual homem? Esse sou eu!
-- Isso é que era bom! Não queria mais nada...
E esticou-se toda do local onde estava para tentar localizar o homem.
-- Vai lá à frente, não vai?
Olhei e não vi. Mas virei-lhe as costas e caminhei, sempre pela avenida acima, e de novo sentindo os olhares das pessoas pregados em mim como se realmente caminhasse despido. Mas não. Nesse dia até estava bem vestido. Apesar disso, senti-me incomodado quando cheguei ao cimo da avenida e encontrei umas duas dezenas de pessoas engravatadas à minha espera. Aplaudiram-me ao mesmo tempo e dirigiram-se a mim ao mesmo tempo, como se fossem um exército. Estive quase para fugir avenida abaixo, mas contive-me.
Muito sorridentes, chegaram junto de mim e deram-me uma medalha, com uma inscrição qualquer que não percebi. Mas agradeci e eles, parecendo muito satisfeitos, seguiram cada qual o seu caminho.
Fiquei espantado, não compreendendo o que sucedera. Mas segui o meu caminho, normalmente, depois de me certificar, mais uma vez, que nada de anormal se passava comigo.
É um vício ou é já tradição? Com carros ou sem eles os dias são todos uns peões à espera de serem atropelados.
Afixado por: Anjo Élico em novembro 12, 2003 07:34 PM