novembro 10, 2003

Medalhas para o peão

Alguém inventou o Dia sem Carros. Demagogia, da mais pura. Nos restantes dias do ano, o carro está sempre à frente dos peões. Porquê celebrar, então, o Dia sem Carros? Já agora, se distribuissem umas medalhas...

Era uma vez...

Um  dia,  na cidade,  tentei apanhar um autocarro.  Passavam todos muito depressa,  e não era fácil. Mas, paciente, lá me meti na fila, atrás de umas dez pessoas que já esperavam alguma coisa. Presumi que era um autocarro, e alinhei. Não era fácil alinhar. O homem  à  minha  frente estava sempre a  mexer-se,  ora  para  a direita ora para a esquerda. Espreitava constantemente, metendo a cabeça fora do alinhamento.  De tal forma que pensei que o melhor seria  cortar-lhe a cabeça.  Estive tentado a  isso,  mas  depois desisti ao pensar nas consequências.  Até é melhor nem falar delas. Mas  deixem-me acrescentar que em breve toda a fila estava  muito mexida,  cada um tentando alinhar com o parceiro da frente, e não conseguindo.
Era  a  fila maia revolucionária em que eu tinha  estado,  e fazia  lembrar  uma turma de  alunos  indisciplinados.  E  poucos minutos depois apanhámos o castigo: o autocarro veio e não parou, deixando-nos a todos desesperados.
Por isso,  fui a pé. Caminhei, que é coisa que as pessoas de hoje fazem muito pouco.  Tornei-me num exemplo.  Enquanto subia a avenida,  fui reparando que as pessoas paravam a olhar para  mim, como se eu fosse despido.  Mas não.  Por acaso,  estava muito bem vestido nesse dia. Fiquei intrigado e perguntei a uma senhora que tinha uns óculos enormes:
-- O que se passa? Porque olham assim para mim?
E ela, muito séria:
-- Não estamos a olhar para si,  nem pense nisso!  Estamos a olhar é para o homem que vai a subir a avenida. Sozinho, imagine-se!
-- O homem? Mas qual homem? Esse sou eu!
-- Isso é que era bom! Não queria mais nada...
E esticou-se toda do local onde estava para tentar localizar o homem.
-- Vai lá à frente, não vai?
Olhei e não vi.  Mas virei-lhe as costas e caminhei,  sempre pela  avenida  acima,  e de novo sentindo os olhares das  pessoas pregados  em mim como se realmente caminhasse despido.  Mas  não. Nesse  dia  até  estava  bem  vestido.   Apesar  disso,  senti-me incomodado  quando  cheguei ao cimo da avenida e  encontrei  umas duas dezenas de pessoas engravatadas à minha espera.  Aplaudiram-me  ao mesmo tempo e dirigiram-se a mim ao mesmo tempo,  como  se fossem um exército.  Estive quase para fugir avenida abaixo,  mas contive-me.
Muito  sorridentes,  chegaram  junto de mim e  deram-me  uma medalha, com uma inscrição qualquer que não percebi. Mas agradeci e  eles,  parecendo muito satisfeitos,  seguiram cada qual o  seu caminho. 
Fiquei espantado, não compreendendo o que sucedera. Mas segui o meu caminho,  normalmente,  depois de me certificar, mais uma vez, que nada de anormal se passava comigo.

Publicado por Joaquim Semeano em novembro 10, 2003 11:41 PM
Comentários

É um vício ou é já tradição? Com carros ou sem eles os dias são todos uns peões à espera de serem atropelados.

Afixado por: Anjo Élico em novembro 12, 2003 07:34 PM