O vício do homem pelo dinheiro é sobejamente conhecido. Basta olhar para as nossas cidades e para o poder que sobre elas tem o lobby dos construtores civis. Etc, etc. Mas nunca é demais lembrar esse vício numa história secreta...
Subitamente, o céu escureceu e uma terrível tempestade desabou sobre o local onde estávamos.
Saí para a rua, feliz pela água que caía, ansioso por lavar todos os pecados, e fiquei surpreso: do céu não caíam gotas de àgua, mas sim moedas, muitas moedas. Fiquei, claro, bastante decepcionado.
Sentei-me num dos degraus da escada, desolado, enquanto outras pessoas saíam à rua e festejavam tão grande sorte. Um velho, que devia ter uns oitenta anos, ou mais, aproximou-se de mim com as duas mãos cheias de moedas, e mal conseguia falar.
-- Veja... veja... -- só conseguiu articular.
Eu vi e não disse nada. Se lhe dissesse o que realmente via, provavelmente ele enlouqueceria. Ou tentaria acabar comigo. Os seus olhos já brilhavam de uma forma pouco ou nada humana. Por isso, logo que ele me voltou as costas, estendi a perna direita e rasteirei-o como se fosse uma criança. Ele caíu pesadamente, mas nem um grito de dor lhe ouvi. Continuou muito feliz, porque caíu numa terra pejada de moedas.
Aterrar em cima de moedas deve doer mais do que aterrar no chão... ao menos o chão é mais nivelado.
Afixado por: HeartLess em novembro 12, 2003 02:19 PMA inevitabilidade actual: as moedas! O universo que povoa a mente-moeda é a inevitabilidade que leva à tragédia; não há saída.
Não entendi aquela do olhar do tal 'velho' - "pouco ou nada humano"...!
Não serão as moedas no interior dos olhares a face mais inevitavelmente humana que os humanos não podem evitar mostrar? Não serão as moedas e as mentes funções naturais próprias da tragédia cósmica?
As moedas eram de quê escudo ou euro ?
Afixado por: Segador em dezembro 1, 2003 09:55 AM