novembro 05, 2003

Viva Michael Stipe

Sempre gostei dos R.E.M., logo desde os primeiros sons que lhes ouvi, ainda, se bem me lembro, no velho "Som da Frente" do António Sérgio. Depois, fui comprando todos os discos, e só falhei o último, ainda nem sei bem porquê. E li as entrevistas, e fui admirando Michael Stipe e companhia.

Hoje, continuo a dar por bem empregue o tempo que passei a ouvir os R. E. M., e dei agora por muito bem empregue o tempo que passei a ler a entrevista que Michael Stipe concede ao suplemento "Actual", do "Expresso" do último sábado. Não propriamente pelas referências que faz à escolha das músicas para a colectânea que lançaram, mas sobretudo pelo que diz do seu país, os Estados Unidos, e da administração Bush. Diz Stipe que se sente no "ventre da besta". A não perder.

Permitam-me, então, que guarde para este cantinho essas palavras que nos dão ânimo e fazem pensar que ainda há, no país mais poderoso do mundo, gente que se preocupa com a evolução da espécie humana:

"É muito difícil ser cidadão americano e não ser obrigado a reconhecer o que se passa com a actual Administração. Nacional e internacionalmente. (...)

"Ao ver-se a televisão americana, pode-se ser levado a acreditar que, neste país imensamente poderoso, a maioria das pessoas acredita que a acção do Governo é positiva. Eu discordo. Há, pelo menos, metade da população que discorda também. Os EUA são um país onde as pessoas trabalham imenso, muitas têm de ter dois empregos, têm de pagar os seguros do carro (e sem automóvel, à excepção de Nova Iorque, não se vai a lado nenhum), da casa, da saúde, de vida, o serviço nacional de saúde não é muito bom, é preciso esforçar-se a sério para pagar a universidade dos filhos, a hipoteca da casa, é necessário haver comida na mesa, máquinas de lavar... A maioria dos americanos tem, no máximo, 45 minutos por dia para dedicar ao que se passa no resto do mundo. Não que não se interessem por política. Têm é todo o tempo ocupado a assegurar que não vão ao fundo. (...)

"É, de facto, um bocado infernal. Adoro o meu país e tem muitas coisas de que me orgulho. Mas uma das coisas que não se compreende é o quanto estamos separados do resto do mundo. E como isso se reflecte na nossa educação desde os primeiros anos e influencia as escolhas, os preconceitos, a forma como se vê os outros, o que sabemos e o que não sabemos. É um imenso país ingovernável. É uma pena".

Publicado por Joaquim Semeano em novembro 5, 2003 12:26 AM
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Afixado por: Capniro em novembro 6, 2003 03:51 PM