novembro 01, 2003

História Secreta do Homem

Todos os dias o homem nos dá que pensar. Cada vez mais intrigante, esta espécie acumula cada vez mais facetas difíceis de entender. O que vale é que no fundo do Bosque eu encontrei uma manuscrito que após muito esforço consegui traduzir. Aqui vai o primeiro pedaço. Depois há mais, mas ainda estou a trabalhar neles...

1
Vi aquela mulher a dançar no cimo de um monte, e fiquei um dia inteiro a pensar nela. No vulto negro rasgando o horizonte.
Ainda estava assim, a pensar, quando ela veio ter comigo.
-- Tu não tens juizo nenhum. -- disse-me.
Eu, é claro, fiquei admirado. Não ter juizo nenhum era coisa que nunca me passara pela cabeça. Por isso, perguntei-lhe porquê.
E ela, com um sorriso incrível:
-- Nunca se olha uma mulher a dançar no cimo de um monte.
-- Não? Mas eu gosto...
-- É perigoso.
E apontou para o monte deserto, uma sombra sem encanto, demasiado pesada no horizonte.
-- O cimo de um monte é um lugar perigoso. Um lugar cheio de enigmas, um lugar do luar. Com uma mulher a dançar, tudo pode acontecer.

2
A noite escura caiu sobre o monte pesado. E lá estava eu, triste e sem dançar, louco por vê-la de novo.
Então vejo, estremecido, a magia chegar. Vem na forma de um cavalo iluminado, deixando o seu rasto fantástico desde a lua que me enfeitiçava. Vem só, e nunca mais pousa. Que angústia!
Decido-me a saltar, com coragem, e consigo finalmente agarrar uma estrela. Sou eu mesmo que vou ao encontro do cavalo de luz.
-- Olá, de onde vens? -- pergunto-lhe.
Ele sorri, e eu reparo que tem a cabeça de um rei.
-- Venho governar a terra. -- responde.

3
Alguém vem, sozinho, pela estrada abandonada. Um homem, talvez. Ouço o barulho do motor, como um leão sonolento.
Escondo-me nos arbustos à espera que ele passe, mas de nada resulta. Demora, demora, nunca mais vem.
Esperto, pára o carro e olha para o sítio onde estou.
-- Que me queres? -- pergunto-lhe, mas não me mostro.
-- Vem cá...
Mas não vou. Pelo menos tão depressa. Fico em silêncio à espera que ele diga mais alguma coisa. E diz!
-- ... sou o primeiro dos teus antepassados!
De imediato, dou um salto e vou para junto dele. Sempre tinha sonhado conhecer os meus antepassados.
-- Anda comigo. -- diz, pegando-me na mão.
Então põe o carro a trabalhar e levantamos voo.

4
Ela estava sentada no outro canto da sala de espectáculos. No entanto, eu vi-a logo que entrei, e de imediato fiquei conquistado.
O que mais me fascinava era a pomba que ela tinha sobre a mesa. Branca como o vestido dela, olhava-me fixamente com os seus miúdos olhos negros.
Mal me sentei, levantei-me. Incapaz de resistir, fui perguntar-lhe:
-- Onde arranjaste essa pomba?
Ela riu muito. Às gargalhadas.

5
-- Isto é muito bonito. -- disse eu ao meu amigo quando fômos visitar aquele museu.
Ele riu-se, é claro. É que tudo aquilo era mesmo muito feio.
Mas eu achei muito bonito. E depois, quando a vi atravessar a sala, com o quadro debaixo do braço, corri atrás dela e acabei por me ajoelhar na sua frente.
-- És a mulher dos meus sonhos. -- disse-lhe, mas ela riu, riu muito.
-- Queres o quadro? -- perguntou.
E enfiou-mo logo pela cabeça. Eu agradeci, e continuo a achar que tudo aquilo era muito bonito.

6
Num entardecer, estava eu sentado na cancela florida quando eles vieram, num grande grupo, buscar-me para a brincadeira.
-- Vem connosco! Vem connosco! -- gritaram.
Puxaram pelos meus braços e levaram-me até um vale, tão circular que parecia uma arena, no meio do qual estava uma velhinha a fazer bolos de amêndoa.
-- Toma, come um. -- disse-me.
Eu comi, e de imediato comecei a levantar voo, como se fosse um balão solto por criança distraída. Enquanto mastigava e me regalava com o doce, pus-me a gritar:
-- Acudam! Acudam!

7
Volto a acordar numa praia enorme, aparentemente infinita. Levanto-me para arrastar a cadeira até mais perto das ondas sonolentas.
Sentado na areia molhada está um jovem. Um prisioneiro, parece-me...
-- Sei que estás preso porque tens grilhetas nos pulsos... -- digo-lhe.
Ele olha-me fixamente, e sorri, superiormente.
-- É por isso que não tens medo de mim, não é?

8
Sentado ao sabor da tarde solitária, aqui estou eu, à espera, à espera.
Ao longe, para lá da janela da cabana, caminha um pastor, de grande casacão cinzento. No cimo da montanha, espera um índio, fumando calmamente o seu cachimbo.
-- Porque estás tão desinquieto? -- pergunta-me ela, assomando ao meu corpo.
-- Temo pela verdade do pastor e do índio.
Desvio-lhe o lençol branco no ombro e pouso na sua pele os meus lábios enfurecidos. Volto a olhar pela janela, o pastor e o índio já desapareceram, no lugar de ambos está agora um grande falcão, recebendo a noite.

9
Caminho pelas longas ruas mal iluminadas, num silêncio imenso. Só se ouve o bater das minhas botas no alcatrão molhado. Já vieram chorar a avenida. Como se fosse um caminho sagrado.
Ela está sentada num banco de jardim, vermelho, da cor dos seus lábios. Também o rosto dela está cheio de orvalho.
Então aproximo-me. Na mão direita levo um balde e um pincel. Sento-me junto a ela, e dou-lhe mais uma pincelada.

10
Cofiando o bigode, sentei-me à mesa. Um homem coxo aproximou-se muito depressa.
-- Que... que deseja? -- pareceu-me ouvi-lo perguntar.
-- Um bife! Muito bem passado.
-- Sim... sim, senhor. E... e para beber?
-- Vi... vinho. Da... da casa.
-- Sim... sim, senhor.
E lá foi ele, a coxear. Voltei a cofiar o bigode, sorridente, e lembrei-me de ir à casa de banho, ver se estava tudo bem com a gravata.
Levantei-me de imediato e fui apressado. Tão apressado que tropeço nos pés estendidos de um homem que parecia o coxo. Sorriu para mim, parecia ligeiramente espantado com a minha queda. Sim, como era possível que eu tivesse caído num espaço daqueles, com o meu bigode cofiado e a minha gravata lindíssima?
-- Que...que deseja? -- pareceu-me ouvi-lo perguntar.

11
Pus um pé sobre aquele mármore novinho em folha, e foi como se um gigante tivesse aterrado. Senti-me mal, por chamar assim tanto a atenção.
Por isso, descalcei-me. As outras pessoas que ali esperavam ficaram todas a olhar para mim. Não percebi bem porquê, e pus-me a pensar nisso logo que me sentei.
Até que vi um pequeno buraco numa das minhas peúgas, que deixava à vista a ponta do dedo gigante do meu pé direito. Dos grandes.
Houve pessoas que começaram a rir, e outras a chorar. Por isso, tirei o meu lenço do bolso das calças e enrolei-o à volta do dedo do pé, tapando-o.
-- Obrigado. -- disseram as pessoas todas, voltando à sua pose inicial.

12.
As coisas vão quentes, lá pelo écran. Um homem foge, desesperado, e vem direito a nós. Antes de ele passar por mim, espreito sobre o ombro da enorme mulher que se sentou à minha frente, a ver se alguém o persegue. Não, aparentemente ninguém.
Desvio-me a tempo de evitar os pés dele, no momento exacto em que ele passa por ali. Espanto-me com a minha calma, e irrita-me que nem a mulher da frente se tenha assustado. Continua sentada no mesmo sítio, impávida e serena.
Volto a espreitar-lhe por cima do ombro. No écran, há agora uma montanha enorme, amarelada, e levanta-se uma pequena poeira, ao longe. Desta vez fico aflito. Logo hoje, que trouxe o fato novo! Sentindo necessidade de me esconder antes que eles passem, festejo finalmente aquela mulher enorme que se sentou à minha frente. Volto a saltar por cima do seu ombro e enfio a minha cabeça no seu peito incomensurável.

Publicado por Joaquim Semeano em novembro 1, 2003 06:01 PM
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