A definição de mistério
Abri a janela de par em par porque estava um calor tórrido, difícil de suportar. Atrás, em cima da cómoda, pus a rodar uma cassete dos Rolling Stones. Quase deixou de se ouvir quando fui à janela abraçar o fresco que vinha do exterior. Mas depois, quando voltei para dentro e me sentei na cama desfeita, ouviram-se nítidamente os sons melodiosos e agressivos.
Mesmo assim, estava um calor insuportável. Voltei à janela, voltei a abraçar o vento ainda morno, vi uma mulher bonita atravessando a rua, elegante, bem vestida, os cabelos negros de azeviche. Na casa em frente, outra mulher, mais idosa, varria o ‘hall’ da entrada.
Sentado nas escadas, a olhá-la, estava um homem de mau aspecto, os cabelos castanhos desgrenhados, uma enorme cicatriz atravessando-lhe a face bem cavada. Com um olhar severo, olhava em frente a mulher que varria, mas a sua mão esquerda, caída e independente, acariciava lentamente um gato branco que ali repousava, mole, quase adormecido.
A mulher, essa, tinha um aspecto humilde. Um grande vestido castanho claro às bolas vermelhas. Chorava silenciosamente.
Como eram oito horas, levantei-me, encostei a janela, fechei a gaveta onde tinha o livro de Jean Cocteau, desliguei a música dos Stones e desci. Fui jantar, e levei comigo uma revista de jogos misteriosos.